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sábado, 25 de dezembro de 2010

Eis o Natal...

E disse Deus: Façamos o homem.

Isto significa que não há homem sem Deus. Sem Deus não há homem, mas sim, outra coisa no lugar dele que recebe a mesma definição. Isto significa que somente Deus cria quem o homem é. De maneira que, se não somos o que Deus cria, não somos homens. Significa que, por si mesmo, ser homem é ser uma criação divina.

E disse Deus: Façamos o homem.
E ele continua dizendo.
Sua palavra cria em mim o que ainda não sou. E com beleza me transforma. E mesmo com pouca nitidez, me faz observar a eternidade.

Oh Senhor, obrigado. Pela pobreza de quem sou me enriqueces de quem és. É por isso que vieste ao mundo, e escolheste ser homem, quando era Deus. Escolheste ser pobre quando era de todos o mais rico. Escolheste uma manjedoura de palha e um estábulo quando poderias ter escolhido um berço de ouro num palácio.

Escolheste uma virgem. Justamente porque resolveste se importar com a vida dos homens que criaste.
Escolheste a mim. Nesse vaso de barro, sem qualquer valor, escondeste um tesouro que mesmo depois de velho e crescido, ainda não aprendi a contar.

Tu me amaste Senhor, e essa é toda a minha riqueza. Agradecido estou, por estar novamente apaixonado. Pela eternidade.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Convite de Lançamento de "Diálogos"

Lançamento "Diálogos"

Olá Caríssimos,

Enfim, a editora multifoco agendou a data do lançamento do meu livro: 18 de janeiro, as 19:00 hrs, na sede da editora que fica na Av. Men de Sá nº 126, na lapa.

Com toda certeza será uma data histórica! 

Espero todos lá!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sermão Cerimonial

Em ocasião de culto público na Igreja Batista de Vila Norma no dia 19 de Dezembro de 2010.

Jo.2.13-25


É comum aos pregadores do nosso tempo, se interessarem por esse texto por dois motivos: Primeiro porque Jesus está irado e segundo, porque sua ira é contra o comércio feito dentro do templo. Por incrível que pareça, a beleza do texto não está num Jesus irado que expulsa os mercadores do templo. Mas sim no motivo pelo qual ele faz isso. Sendo assim, o grande tema deste texto não pode ser outra coisa a não ser a graça de Deus. Um Deus que se ira por graça.

Jesus vai à Jerusalém para a páscoa. Uma festa religiosa onde se comemorava a liberdade. Jesus vai à Jerusalém, e o que ele encontra é uma nova forma de escravidão, justamente por meio da religião. É predominante no judaísmo da época de Jesus, a conquista do perdão de Deus por meio de sacrifícios de animais. O animal oferecido era um símbolo do pecado, assim como substituía ritualmente também esse indivíduo pecador. O homem pecador na linguagem da religiosidade judaica é comparado a um animal irracional. Tal como um boi que mugi e um cordeiro que bali. A morte do animal, assim como o derramamento de seu sangue representava a extinção do pecado, consequentemente o perdão divino. 

Na época, a maior fonte de riqueza era a terra. Era inevitável que os donos das terras se dedicassem também à criação de animais. O pobre não tinha terra. Sem terra, o pobre não poderia ter animais (com exceção dos pastores, que criavam suas ovelhas em terras livres). Não tendo animais, o pobre não tinha o que sacrificar para ter o seu pecado perdoado. Inevitavelmente pela lei, continuava pecador e por isso, excluído do templo, onde pela tradição judaica era o local onde Deus escolheu se manifestar. Por não ter sacrifício, o pobre era excluído da presença de Deus. No judaísmo vigente, exclusão espiritual era o mesmo que exclusão social.

Na época de Jesus, a grande maioria da população era pobre. Isso significava que apenas uma pequena elite teria condições de cumprir às exigências da lei para alcançarem o perdão de Deus. Os sacerdotes permitem a venda de animais para que o pobre tivesse a oportunidade de sacrificar. Mas como cobrar algo de alguém que não tem nada? As mesas estão cheias de dinheiro. É preciso, portanto, se vender e se corromper, se deixar escravizar. A páscoa se torna uma festa da escravidão de pessoas que apenas querem o perdão de Deus, e não de liberdade.

Diante dessa cena Jesus fica irado. O povo não está livre, mas é escravo de quem lhes prometeu liberdade. Com violência os comerciantes são expulsos do templo. Com esse gesto, Jesus demonstra que a graça de Deus não pode ser vendida, que ela não tem preço. E se a graça não pode ser vendida, igualmente ela não pode ser comprada. Que não existe homem que, por esforço próprio a conquiste. Com esse gesto, Jesus demonstra que a graça de Deus apenas precisa ser aceita, justamente porque diante de Deus, até o homem mais rico, mais sábio, mais justo e mais santo é muito pobre.

“Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim; tu és o meu amparo e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus!” (Sl. 40.17).

Em Jesus Deus se ira diante da injustiça. A ira de Jesus também é divina, e é uma resposta diante da escravidão do pobre, daquele que não tem nada para sacrificar. Albert Camus escreveu: "Liberdade é uma possibilidade de ser melhor, enquanto que escravidão é a certeza de ser pior.".

Responderam pois os judeus, e disseram-lhe: Que sinal nos mostras para fazeres isto? (v.18).

Jesus promete destruir o templo. Um templo de pedra não pode limitar um Deus verdadeiro. O templo é destruído porque ele não é o verdadeiro templo de um Deus eterno. O verdadeiro templo de Deus é Jesus. Ele será torturado pelos homens, será imolado, sacrificado. Será o sacrifício para todo aquele que não tem como oferecer a Deus sacrifício algum. Para aquele que diante de Deus é pobre, isto é, todos nós.  Mas ao terceiro dia ele ressuscita.

Aceitar a graça de Deus é aceitar-se como muito pobre em relação a ele. É aceitar-se como alguém que para Deus não tem o que sacrificar. É aceitar o sacrifício de Jesus por nós. Jesus, o verdadeiro templo pelo qual a Deus temos acesso. Bertrand Russel escreveu: "A liberdade é algo maravilhoso, mas não quando o preço que se paga por ela tem de ser a solidão.". Jesus pagou o preço pela nossa liberdade. Em Jesus a páscoa se torna novamente uma festa de liberdade, onde todos podem ter acesso a Deus, sem dinheiro, inteligência ou até mesmo sem moral. Sem mérito. Apenas por meio de Jesus.

Soli Deo Glória.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Campanha "Adote Um Seminarista"


Olá caríssimos,

Como é difícil ser seminarista! Principalmente quando os recursos são próprios. Poucos conseguem conciliar trabalho e estudo de maneira harmoniosa diante do intenso cronograma de atividades do ano letivo. Por conta disso, por inúmeras vezes pensei e tentei desistir do seminário: ainda não consegui, e cá estou em direção ao quarto período. O desgaste mental é bem maior do que o físico. O sentimento de desamparo contribui para a falta de estímulo e apatia. Por conta disso, pensei num projeto a fim de tentar melhorar (e quem sabe mudar) essa situação, o que me trouxe novas esperanças e estímulo para continuar.

O Projeto consiste numa etapa inicial de conscientização da importância da formação teológica, acadêmica e pastoral para todos os vocacionados à carreira ministerial. Nessa etapa (de dois dias), igrejas serão convidadas a receberem, por um valor simbólico, palestras sobre a importância da teologia e do ministério pastoral na sociedade, a carreira do teólogo/ pastor e aspectos legais. A partir das decisões a igreja local será estimulada a contribuir para o sustento do candidato ao seminário. A segunda etapa consiste na confirmação dos candidatos, e nela, durante um dia inteiro de atividades, os vocacionados serão estimulados ao ensino, a pregação e a evangelização.

Um seminarista que é sustentado pela sua igreja local se compromete com ela. É natural que seminaristas que se empenham em sustentar a sua própria formação, se considerem livres em suas decisões futuras quanto ao ministério e as atividades corporativas da congregação. Se a igreja coopera com o seminarista, a situação é bem diferente: ele tem o direito de cobrar resultados. Todavia, outros fatores predominam na decisão de uma igreja em sustentar seminaristas: o número de vocacionados (que pode ser bem maior que a possibilidade financeira da igreja) e o receio da liderança por competição. O seminarista não deve ser um inimigo do pastor, mas sim seu cooperador direto. Sua função é colaborar para o crescimento e desenvolvimento da igreja.

Um seminarista que valorizado por sua igreja se sente incentivado, e isso pode acontecer através de homenagens públicas, cartas e oração principalmente.

Adote um seminarista.

Ele precisa de você, mais tarde, será você, talvez, quem irá precisar dele.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diálogos


Olá Caríssimos,

O conjunto de crônicas que postei no "Vigília da Noite" será publicada pela editora multifoco. O livro, cujo título inspirou este blog ainda não tem previsão de lançamento, entretanto, antecipadamente fica o convite.

Será que agora eu me tornei um escritor de verdade?

Realmente ainda não sei. Entretanto, para a noite de lançamento estamos com o projeto de um debate aberto sobre o livro e com alguns teólogos amigos, sobre teologia, filosofia, a vida e qualquer outro desvaneio repentino. Teremos também a participação da banda LIZARB (isto mesmo, é Brasil ao contrário e com "z") animando a festa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Turbilhão Poético Cultural Carioca

Olá Caríssimos,

No dia 16 de dezembro às 19:00 hrs, estarei no Centro Cultural Casa Rosa participando do Projeto Apun Cultura em laranjeiras, lendo algumas crônicas. Um projeto onde literatura, música e artes se mesclam numa finalidade terapeutica.

Abaixo segue uma pequena descrição do projeto:


"Como o próprio nome diz, o Turbilhão Poético Cultural Carioca é um encontro festivo que nasceu da união entre o movimento ApunCultura e o Sarau Casa rosa e é dedicado aos poetas, atores, músicos e artistas em geral (sejam eles praticantes ou não), dos mais variados locais e regiões do Rio e fora dele. Um evento que disponibiliza uma experimentação, uma terapia coletiva num clima de relaxamento e muitos contatos com um turbilhão de novas (e antigas) idéias, intervenções e atrações culturais. Sempre mantendo como ponto central a poesia.
E o mais importante disso é: - quem nos ajuda a fazer a festa são VOCÊS!

Algumas performances poéticas, esquetes e shows dividem-se entre blocos e intervalos do lado de fora da casa, ao som de um Dj. O importante neste espaço é conhecer  e difundir artistas dos mais variados gêneros.
No segundo ambiente, dedicamos o espaço aos trabalhos áudio-visuais (vídeos, pinturas, quadros, desenhos...) com instalações e exposições dos mais diversos gêneros e formas.

Aliando-se a idéia central do Movimento ApunCULTURA, onde o mais importante é estimular a participação de todos, pedimos que, aqueles que desejarem divulgar a sua arte, sintam-se em casa, este é o espaço. O palco terá um espaço livre e o microfone aberto  para todos que queiram se mostrar e amostrar em arte.

Conte-nos que arte você pratica,de que maneira ela se desenvolve e mostre-a ao mundo .
Como dito, o evento também será seu.
É só entrar e relaxar."

sábado, 20 de novembro de 2010

Oração de Nietzche


A Oração ao Deus Desconhecido
Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
"Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

[Friedrich Nietzsche]

O Que é Teologia? (Uma Introdução)

Deus existe?
Uma questão cheia de equívocos. Existe uma longa história para que essa pergunta ganhasse os contornos que possui hoje toda vez que a fazemos.

O que é Deus?
Uma pergunta grega sobre a questão. Para o grego Deus é Theós. Etimologicamente difícil de traduzir, entretanto, arriscaria dizer se tratar da consciência do mistério da vida, do mundo, do outro, de si mesmo. Qual é o propósito do mundo? Qual é o propósito de estarmos no mundo? Esse mistério, presente, porém velado, os gregos chamavam de Theós, o fundamento, o propósito de todas as coisas, a essência em si mesma. Para o grego Theós é o mistério velado sobre a vida. Um mistério que inquieta e angustia, e que, portanto, nos força a tornarmo-nos abertos para o mundo, outro e nós mesmos. Para Heidegger a presença do mistério (do Theós) é caracterizada pela consciência da finitude. É consciente de sua transitoriedade que o homem indaga pelo sentido, e isso o permite abrir-se para o mundo.

Essa abertura produzida pela presença do mistério é definida pelo grego como Philía. Essa aproximação do homem com o mistério (o Theós) por intermédio da reflexão, pela busca de sentido, o grego entendia como a busca da sabedoria em si mesma, da Sophía. A Philosophía nasce, portanto da consciência do mistério e de uma relação com ele. É, portanto, primariamente uma Theophilía. O amor à sabedoria é o amor ao Deus. Amor aqui entendido como inquietação e abertura. A Sophía portanto é o próprio Theós. O sábio portanto, seria o próprio Theós ou então portador de sua palavra (o logos).

Os gregos consideravam a existência de sete sábios, portadores do logos do Theós. Pré-socráticos respectivamente: Tales de Mileto, Periandro de Corinto, Pitaco de Mitilene, Bias de Priene, Cleóbulos de Lindos, Sólon de Atenas e Quílon de Esparta. Todos eles, estadistas ou legisladores, que muito contribuíram para o desenvolvimento social e político. Para Platão a filosofia consistia propriamente na amizade (afeição) pela sabedoria dos sábios, isto é, pelos ensinamentos dos sete sábios pré-socráticos. Por serem representantes do Estado grego, o poder político lhes oferecia a autoridade religiosa. Eram verdadeiros messias para o seu povo. Tanto, a ponto de muitas máximas de tais sábios serem inscritas no templo de Apolo (o deus da palavra, do logos) em Delfos.

Entretanto, como a Theophilía se torna a Theología?  

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1.1).

Para os gregos, assim como para João, o logos é a manifestação do Theós. O logos é a manifestação do Theós através da linguagem, e por isso mesmo, é discurso. O discurso enquanto manifestação do Theós é o seu fenômeno, e não necessariamente a coisa em si kantiana. A fenomenologia se torna então o fundamento pelo qual uma theologia se torna possível, pois descreve não o Theós, mas sim como ele se manifesta, como ele se revela, como ele se torna pronunciável. A theologia nasce a partir da manifestação do Theós enquanto fenômeno. Esse fenômeno é o discurso que o Theós faz de si mesmo, e que por isso, é revelação.

Na Grécia o portador do logos se estabelecia como um legislador ou estadista. O portador do logos divino era um representante do Estado. O cristianismo altera profundamente essa visão, onde o portador do logos, assim como a manifestação do próprio logos divino, é um humilde e pobre camponês da Galiléia. O logos é Jesus Cristo, desse modo, a teologia se estabelece como a manifestação de Deus enquanto (como e em) Jesus. Karl Barth define teologia como um falar a partir de Deus, a partir do Theós. O Theós em si mesmo sempre nos será vedado. Sendo assim, podemos definir teologia como um falar sobre Deus a partir de Jesus Cristo, o que significa um falar sobre Deus a partir do pobre, do misericordioso, do perseguido, do crucificado pela Polis.

O cristianismo irá se destacar de outras religiões, porque nela, Deus existe. Pensar que um Deus existe já é humaniza-lo, e isso é um conceito propriamente judaico-cristão e equivocadamente afirmado como sendo grego. Antes do judaísmo/cristianismo nenhum Deus “existia” propriamente. Os deuses gregos embora com sentimentos (bons e maus) humanos, se diferenciavam de nós por serem incapazes de amar, assim como expressar diante do homem suas fragilidades. O termo “existir” não define especificamente o fato de aparecer no mundo. Antes, define uma relação com ele. Uma relação de transitoriedade, mutabilidade, de crise. O homem existe, e isso significa que ele tem consciência de sua transitoriedade, de que ele não é permanente. Existir consiste na reação que tomamos diante da consciência de nossa transitoriedade, que tanto pode se estabelecer a partir de uma conformação ou uma permanente inquietação e angústia. Deus existe, e isto significa que ele se torna transitório, humano.

Em Jesus, Deus existe, e por isso sofre. 

Num sentido amplo, define-se teologia como um discurso sobre o divino. Dessa maneira, se torna explícito de que existem outras formas de discurso sobre o sagrado, que não pertencem a ela. Por ser ampla, a definição de teologia enquanto discurso é incompleta, pois a pluralidade que lhe determina a abrangência lhe inibe de identidade, lhe condenando à abstração. A teologia enquanto puro discurso revela a imagem de uma divindade sem rosto e sem nome, distante dos homens, enquanto os mesmos, suplicantes, não cessam de reclamar diante de vários altares que essa mesma divindade se revele, apareça. O grande equívoco que estabelece tal abstração é fundado numa imprecisão sobre os fundamentos desse discurso. Desse modo, não podemos falar em teologia, mas em teologias

Esse discurso sobre o divino não deve se limitar a um monólogo. Não é o homem que fala à Deus, e este, paciente e mudo, lhe escuta. Estaria o criador do mundo próximo da figura de um psicanalista freudiano? O homem não está em condições de fazer exigências a Deus. Tornou-se o criador o serviçal obediente de suas criaturas? Todavia, a teologia não deve se restringir apenas à definição de um Deus que fala ao homem. Há uma resposta. Falando ao homem, o criador se revela, mostra seu rosto, seu nome, sua identidade.

O discurso teológico se define precisamente como um diálogo. É exatamente esse diálogo que lhe distingue de outras formas de discurso sobre o sagrado. Diálogo que ilumina o sentido de religare, de religação com o sagrado. O religare se torna inevitavelmente uma forma de discurso, de fala. É oração, porque o homem fala a Deus, tentando, com a suas limitações se aproximar dele[i], pergunta; mas é também revelação, porque Deus também fala ao homem, lhe responde.

Esse diálogo é histórico, logo, marcado por registro no tempo e no espaço, e que por isso, participa da vida dos homens do presente e do futuro. Por ser histórico esse diálogo pode ser transmitido por meio de registro. Um registro que evolui ao longo do tempo: tradição oral, escrita, áudio, visual e sensorial. Nascem a bíblia e os ritos de culto, sínteses do registro histórico de diálogo entre o humano e o divino.

Esse diálogo registrado no tempo é fundado numa tensão, numa crise, logo de primária oposição, de distância, e interesse de conciliação entre o material e o espiritual, entre o céu e a terra, entre théos e Cosmos (e indiretamente physis – a natura). Teologia se realiza por meio de uma tensão, cuja meta é conciliação. A teologia enquanto diálogo tenso entre Deus e o mundo (sociedade) é crítica. A teologia não pode escapar de ser uma crítica da sociedade, seus paradigmas e vícios, seus valores. Os limites dessa crítica determinarão o sentido próprio de se fazer teologia, bem como sua finalidade na sociedade. Uma crítica moderada reflete apenas uma proposta de reforma, sem, contudo alterar os fundamentos anteriormente já instituídos. Reflete apenas uma intensão conservadora, de atenuar conflitos, mas não de extingui-los. Uma crítica radical reflete uma intensão radical de ruptura. Alguns, mais moderados, pensam que tal ruptura radical se realiza de maneira progressiva, outros, no entanto, defendem uma ruptura imediata. Estes, com freqüência são estigmatizados e estereotipados como anti-sociais ou excêntricos, quanto mais, enquanto cristãos.



[i]   A oração, enquanto situada num discurso do homem para Deus, determina seu esforço em dirigir-se a ele por sua própria compreensão sobre o sagrado. É antropológica em si mesma. No NT a oração destituída de revelação não tem valor, ganhando por isso, biblicamente, um valor antropo -teo –lógico.

domingo, 31 de outubro de 2010

O Novo Hábito dos Escritores

Passou o tempo em que ser escritor era motivo de prestígio e que por essa razão se podia ostentar alguma coisa. Passou o tempo em que era possível agradar a família e os amigos, e até conseguir alguns suspiros de mulheres que se apaixonavam pelo autor de seus livros favoritos. Pois é, esse tempo passou. Hoje, os que se dedicam a escrever, apenas o fazem por muita insistência e caduquice. Apenas por vocação. O escritor de ontem não é o mesmo que escreve hoje. Mais do que paixão, havia idealismo. Hoje porém é possível escrever sem causa alguma, apenas por diversão. Infelizmente são esses os raros autores que vendem. Atualmente a lógica que rege a literatura é a mesma das cifras monetárias, afinal, alguém precisa comer, e nesse caso, não estou me referindo aos literatos.

O ócio do artista hoje constitui mais um produto da dificuldade em se vender bons originais às editoras, do que propriamente uma possibilidade para que ele tenha boas idéias para seus livros. O estereotipo eremita que norteia o ofício literário, hoje nada mais significa do que uma forma de redução de custos diante dificuldade em sustentar esposa e filhos só com literatura. É mais cômodo e barato ao artista não ter amor algum. Alguns se tornam reclusos e amargos, substituem o amor pela crítica e pela própria arte. Outros, boêmios, acham mais conveniente, eventualmente pagar uma garota de programa e se afogar no álcool.

Não sou desse tipo. Ainda conservo o idealismo romântico de querer um dia fazer história com literatura, o que hoje em dia pode ser considerado algo cômico. Entretanto, alguém seria capaz de rir de autores como Sartre, Camus e Heidegger? Eles não eram deuses, mas homens. Qualquer diferença entre eles e eu apenas pode ser medida por esforço.  

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um Casal Estranho

Um casal estranho. Muito estranho.
Alguns vizinhos diziam que ele batia na mulher. Outros porém, afirmavam que era a mulher que batia nele. Particularmente, prefiro acreditar que ambos gostassem de se torturar juntos. Ela tinha um temperamento muito doce, típico das donzelas dos contos de fadas. Ele, de igual modo, era um cavalheiro. Seria incapaz de tratar alguém com rispidez. Sabia ser educado até mesmo quando se irritava.
É, realmente era um casal estranho. Muito estranho.
Inesperadamente resolvem se divorciar. Natural, se ambos não fossem membros de uma igreja que pregava a indissolução do casamento. Inevitavelmente o caso se tornou polêmico:

- A bíblia proíbe o divórcio. Contestou o pastor.
- Não, não proíbe. O torna impossível. Retrucou o esposo.
- Não compreendo então a sua atitude.
- É muito simples: “O que Deus uniu não separe o homem” é a máxima de Jesus. O que Deus uniu é impossível de ser separado pelo homem. Explica o esposo.
- Concordo plenamente. Afirmou o pastor.
- Mas o que Deus não uniu? É no mínimo sensato afirmar que nem todas as uniões foram feitas por Deus. Sendo assim, é possível que uniões realizadas pela ansiedade do coração dos homens sejam inevitavelmente solúveis.
- Como é o seu caso. Desafiou o pastor.
- Claro! Erros precisam ser corrigidos.
- Mas a bíblia só permite o divórcio em caso de adultério.
- O simples fato de se desejar secretamente uma mulher que não seja a esposa, já constitui um ato de adultério segundo o próprio Jesus. E mesmo assim, quantos casamentos persistem apesar disso?
- Pois então, você não pode fazer o mesmo? Não pode viver em perdão?
- Infelizmente não.
- Mas porque?
- Por que ela é homem.
Pela perplexidade encerrou-se o assunto.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Vigília da Noite (Primeiro Texto)

“Para todo aquele que dorme, imerso em toda a profundidade de seus sonhos, e até mesmo de seus pesadelos, nós não existimos, e quando muito, somos para eles como um sonho também. Eles dormem e nós, mesmo com toda a nossa luta contra o sono, estamos ainda muito longe de dormir, tudo o que somos para eles, nada mais é o que não somos e tudo o que eles são, nós estamos acordados e eles não, diferença que permanece e que nos distancia de um conceito, de uma idéia, de um “achar”, e que por isso nos aproxima da certeza. Nós temos uma certeza, eles não possuem certeza alguma, nem mesmo sobre quem eles são. O sono não dá identidade, mas uma fantasia com um nome, gostos e humor, o sono não dá personalidade, apenas um rótulo que é constantemente substituído. Libertemos os homens dos rótulos pela fé que há em nós! Despertemos os homens de seus sonhos fazendo-nos existir para eles, e existir não como sonho, mas como realidade, e isso requer acorda-los de todo o estado vegetativo que se encontram.”
“E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” (Cf. Mt. 10.7)

Consciente de sua individualidade diante dos apelos da multidão pedinte e anônima, o homem, cujo relacionamento com Deus se fundamenta na própria individualidade, adquire uma identidade que lhe requer total responsabilidade diante da multidão. O apóstolo é aquele cujo relacionamento estritamente pessoal e intransferível com Deus, lhe destaca dos interesses da multidão, concedendo-lhe identidade que o personifica e o destaca, não como algo elevado, mas profundamente baixo. O apóstolo se identifica pela fé com a exclusão e nela ele socialmente se personifica, isso porque não é qualquer tipo de exclusão que fundamenta a intensidade de seus atos e esforços, tal como a pobreza é o fundamento da exclusão do homem na sociedade, a fé é o nosso fundamento, motivo capital de nossa ação e exclusão.

A fé enquanto fundamento da exclusão de todo aquele que crê, em sociedade, é o motivo de uma pobreza social, não uma pobreza caracterizada pela impossibilidade de aquisição de bens, fruto permanente da desigualdade social, mas sim, pela possibilidade de doação que supera as classes. A “pobreza evangélica” é produto da intensa luta do cristão na extinção das desigualdades sociais em direção à afirmação da individualidade humana, através da doação de si mesmo pela totalidade de suas possibilidades físicas, econômicas, emocionais e intelectuais. A fé doa o homem à massa, todavia, sempre se distingue dela, isso porque a fé jamais se alia à massa, à generalidade, mas apenas ao indivíduo, pois é somente na individualidade que o homem escapa a toda coisificação promovida pela imersão da identidade humana nas sociedades que divinizam o capital, reduzindo o homem à pura funcionalidade maquinal, o que o destitui dessa identidade, conduzindo-o ao anonimato social e espiritual. A fé promove uma identidade para o homem que enquanto possibilidade de doação é ruptura com toda massificação do indivíduo reduzido a funcionalidade de suas ações e a afirmação do indivíduo em sua sociedade, porém,  tal afirmação não deve ser concebida como a alienação do indivíduo em sua liberdade, como impulso aleatório para se determinar uma conduta, a fé é sempre é uma fé para com Deus: a responsabilidade entra como condutor da liberdade social do indivíduo através da consciência que o mesmo tem de sua fé, da intensidade de sua relação com Deus.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Jesus Acalma a Tempestade

“- Passemos para a outra margem”. É a ordem de Jesus.
Obedientes, os discípulos não questionam. 
Mal sabiam eles que era para a tempestade que Cristo os levava. Sim, para a tempestade!
Jesus dorme durante o trajeto, a fúria do vento e das ondas desafiam a fragilidade do pequeno barco. Jesus dorme e o caos se manifesta. Não há como ser indiferente ao caos. O sentimento de terror e abandono é inevitável: “- Mestre, não importa que pereçamos?”. Jesus parece não se importar. Um grito de socorro o desperta. Imediatamente se levanta e com a sua palavra repreende o caos. Sua palavra traz ordem ao caos. A beleza desse texto consiste na proposta de Jesus em motivar um ensinamento: de que Deus controla todas as coisas, e que se não houvesse nada sob o domínio de suas mãos, o caos dominaria o mundo. Deus não desamparou sua criação, e isso é prova do seu amor. Sua ausência do mundo provocaria um colapso. Sua presença e palavra trazem a ordem, e por isso, beleza. Onde não há essa presença e essa palavra existe apenas tempestade. Deus não abandonou a sua criação e isso é fonte de esperança ao ser humano, pois pode transformar o nosso caos em ordem à medida em que confiamos nele. Em que gritamos!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Gênesis

Apresentação de um novo livro de ficção que estou escrevendo. Espero que gostem.



Porque o Reino de Deus se manifesta justamente com a chegada da vida eterna? Justamente porque o reino dos homens somente pode subsistir com a permanência da morte, da violência e da injustiça. O eterno e o temporal são elementos característicos que distinguem e identificam o humano e o divino, e enquanto essa heterogeneidade, essa distância persistir, o divino sempre será objeto de veneração e almejo do homem (seja do ponto de vista ontológico, psicológico, social, político e etc.). Constituirá portanto, parte de sua história. Construirá a sua história. Um Deus eterno sempre fará parte da história de um homem limitado pelo tempo. Constitui-se portanto, de uma mútua carência: o homem procura Deus através de seu anseio pela eternidade e Deus procura o homem através de seu anseio pelo tempo, que para o homem é concreto (regulador da vida e da morte, no desenvolvimento e decadência das sociedades e etc.). Esse é um dos sentidos fundamentais da encarnação: Deus se torna homem, mergulha no tempo, afim de que todo homem tenha a oportunidade de mergulhar na eternidade. Esse é o sinal de inauguração do Reino de Deus em Cristo Jesus. Todavia, esse é uma ato realizado pelo próprio Deus, solapando assim todo projeto humano de autonomia. Deus se impõe ao homem, mesmo em amor.

O que significaria vida eterna? O cristianismo se destaca de todas as religiões justamente porque confere à eternidade presente do homem (alcançada mediante a fé) a consciência de que isto significa uma mudança radical de valores. Em outra palavras, ensina que a conduta do homem é naturalmente tendenciosa ao horizonte da finitude. O destino da morte (como aniquilamento total da existência ou incerteza quanto ao futuro pós-morte) constitui a conduta de homens irresponsáveis e omissos aos problemas do mundo e de suas comunidades e mais interessados em sua satisfação pessoal. Conduta típica da maioria. Por outro lado, o cristianismo oferece a vida eterna e insiste entre seus adeptos a pensarem como se vivessem eternamente, mesmo tendo em vista a realidade passageira da morte de sua limitação ao corpo.     

Gênesis, embora uma ficção, procura realizar uma reflexão sobre o trajeto de retorno nesse processo, o passo inverso. Procura entender o secularismo, cujo projeto de autonomia, se realizaria de maneira plena a partir da conquista humana da imortalidade. Em sua radicalidade, a “morte de Deus” nietzscheniana é um projeto provisoriamente fracassado. Uma sociedade onde Deus esteja realmente “morto”, onde os homens estejam alheios a qualquer espécie de esperança metafísica, somente ganha sentido com a imortalidade do homem. Dessa maneira, nossa maneira de compreender a civilização mudaria drasticamente.

Sem a morte a violência se tornaria uma forma de diversão. Algo não muito diferente dos nossos dias, mas concerteza, algo bem mais intenso. Declaradamente sarcástico e masoquista. Sem a morte o sexo de igual modo se destinaria apenas para diversão, entretanto, não como uma norma cultural, mas jurídica. O crescente aumento da natalidade extinguiria rapidamente os recursos naturais da terra. Rendendo-se ao divertimento, nossos hábitos sexuais também seriam profundamente alterados, o corpo ganharia uma acentuada valorização, e a busca desenfreada pela satisfação dos sentidos um motivo para guerras. Nasce a partir daí, um novo homem, e por isso, uma nova forma de sociedade e civilização.

Entretanto, o super-homem nietzscheniano não surge apenas da vitória do humano sobre o divino através do roubo de fogo dos deuses, a imortalidade. Não se trata apenas de vencer o divino e a morte, mas também de esquece-lo. Se nossa civilização fora construída a partir da encarnação de Deus na história ocidental, isso produz uma lembrança histórica que torna o divino uma realidade impossível de ser aniquilada. Deus não estaria morto, mas seria transformado, ressuscitado, adaptado às novas circunstâncias. A morte nietzscheniana de Deus se estabeleceria num segundo momento com a aniquilação da memória metafísica. Um procedimento complexo, pois nos referimos ao divino como um conceito enraizado na memória social das civilizações. O grande mentor dessa memória consiste no nosso conceito linear de tempo. Esse mesmo conceito determina nossa forma de produzir, de pensar, de viver e de morrer na cultura ocidental. A morte nietzscheniana de Deus se processaria dessa maneira como um rompimento doloroso de uma civilização com todo o seu passado. Sem memória, tudo deveria ser incessantemente re-criado a cada dia, inclusive a consciência dos homens.

Planeta dos Macacos resgata a idéia de se estar num mundo completamente rompido com o seu passado. Os macacos na realidade são outra espécie de homens oriundas desse rompimento, dessa distância. Criando uma nova civilização, eles criaram um novo começo para o homem, uma nova memória, uma nova história, uma nova forma de contar o tempo. Cidade das Sombras, à sua maneira, também tenta explorar esse conceito. Apoiará toda a sua narrativa na proposta de que a memória é uma constante entre causas e efeitos, lineares ou circulares, determinando assim um conceito específico de temporalidade, logo, de história. Não há passado sem memória, e isso somente pode ser interrompido se o tempo (linear ou circular) deixar de ser uma constante – o que é naturalmente impensável se não alterarmos as leis da lógica e do bom senso. Dessa maneira, o filme irá reduzir a constante temporal o máximo possível (a fim de resguardar ao filme certa coerência lógica). Isso é bem expresso no filme quando os alienígenas apagam a memória dos moradores da cidade a cada noite e a re-programam para o dia seguinte, ou seja, a memória social (logo, a história) é mantida durante apenas todo o decurso do dia, sendo quebrada (perdendo assim sua seqüência lógica) entre um dia e outro. A cada dia uma nova história é contada, uma nova ordem lógica, uma nova memória.

O onírico representa bem essa nova maneira de compreender o tempo, sem ordem lógica e não histórica. O onírico é por si mesmo um mundo sem história, sem passado e sem futuro, sem memória. O filme Um Cão Andaluz de Luiz Bruñel e Salvador Dali, expressa bem esse tipo de universo. Fazendo uma ponte entre Nietzsche e Freud, fica fácil entender que o super-homem nietzscheniano é o próprio Dionísio, um homem ausente de repressões, senhor de sua vontade. Isso somente seria possível de maneira plena com a posse da eternidade. Um homem ausente de repressões é um homem ausente de culpa, logo, de memória também.  

O que seria entretanto, uma civilização dionisíaca, se levarmos em consideração, diferente dos gregos, nossa intensa produção tecnológica? Não existem respostas convincentes para uma questão como essa, entretanto, é possível arriscar. Arriscar fazendo ficção. É essa a proposta desse livro.

João, um velho teólogo, que por conta do alcoolismo se tornou morador em São Paulo, ressuscita, justamente num mundo onde ninguém mais morre. Ninguém sabe como isso aconteceu, nem mesmo João. Por conta disso, ele não tem identidade ou qualquer documento, apenas a sua memória. Ele simplesmente aparece. Poderia ser interpretado como louco, mas nessa época ninguém mais sabe o que é isso.

No futuro, os homens vivos poderão viver para sempre ou planejar quando deseja morrer. A descoberta da imortalidade alterou nossa maneira de enxergarmos toda a civilização (o sexo como procriação se tornou um crime, a fim de se evitar a superpovoamento do planeta, todavia, é aceito como pura diversão, gerando as maiores bizarrices; sem a morte o homem não tem medo, não possui dilemas existenciais, todavia, extremamente violento, reinventado o conceito de violência, o aumento da violência gratuita acaba com a amizade e o amor; não há mais morte, contudo há dor, muita dor; sem a morte acreditar em Deus se torna desnecessário). O caso de João é excepcional, pois não se tem notícia, ou tecnologia para se fazer alguém morto a tanto tempo retornar à vida, a não ser através de clonagem. Contudo, clones não possuem a mesma memória da matriz.

O grande enigma de João consiste no fato de que, com o controle de natalidade estagnado, todos os indivíduos são conhecidos por um sistema global. João aparece do nada. Acorda e anda errante num mundo totalmente estranho ao mundo que conhecia no passado. João é reconhecido como um corpo estranho pelo sistema, pois não tem uma origem, e dessa maneira não se sabe o seu fim. Não tem passado. Seu único vínculo com o passado é a sua memória. 

João então passa a ser ouvido. Sua memória não apenas expressa doces lembranças pessoais, mas o único registro de uma civilização que fora apagada da história. Interpretar o caso de João como um milagre é constrangedor para o futuro. Nessa nova civilização, não há fé ou qualquer registro história das religiões e de Deus. Um mundo onde Deus não existe e por isso mesmo não possui história. O futuro é um mundo sem Deus, sem morte e sem classes (os políticos pensaram: se o poder da imortalidade pertencer apenas aos mais ricos, enquanto houver morte haverá fé em Deus. Alem, disso haverá por parte de uma classe ou outra a justificativa para se pregar eugenia). A partir daí ele conta a história de Deus. João se torna um profeta, e por isso mesmo, marginal. E como todo profeta, estabelecerá uma crise no futuro: a morte e ao colapso social.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Valor do Celibato

Todo casamento estabelece um compromisso de dedicação, exigindo de nós um temperamento de tolerância e menos exigente quanto a conduta do conjugue: caso contrário não haveriam exemplos de casais unidos por muito tempo, visando sempre a preservação da estrutura familiar. Atos considerados banais como lavar a roupa, preparar o almoço, cuidar da organização da casa e pagar as contas são em sua essência medidas internas de coesão familiar. Contudo, não são apenas os perigos internos (característico na ausência de responsabilidades no núcleo familiar) que desestabilizam a unidade numa família, há também problemas de ordem externa, que minam a estrutura familiar a partir de fora: assaltos, seqüestros, agressões verbais e físicas a algum membro da família. Talvez o grande ensinamento do casamento consiste em aprender a não pensar apenas em si mesmo, a se preocupar com o outro.  

Decidir-se por se tornar um pai de família e um marido exemplar diante de uma sociedade indiferente a tais valores é uma atitude louvável. Contudo, homens dessa espécie jamais poderão compreender a mensagem cristã em sua radicalidade. Se por um lado o casamento nos ensinar o valor da abnegação, por outro, seu defeito consiste exatamente em ser um ótimo exercício para se diminuir ou até perder o senso crítico. Um homem casado, por amor a sua esposa e filhos sempre será obrigado a medir o peso de suas palavras antes de pronunciá-las, dessa maneira, o impedindo de uma autêntica relação com a verdade. Um homem solteiro de comportamento semelhante (moderado no agir e no falar), por outro lado, apenas demonstra um interessa radical em preservar por mais tempo a sua própria vida: puro egoísmo. O honroso pai de família se aproxima do homem solteiro de hábitos moderados (talvez até mesmo um cristão exemplar) pelo desejo de proteção a si mesmo ou a sua família.
 Inevitavelmente o casamento obscurece o caminho concreto para a verdade, é exatamente por esse motivo que muitos filósofos e místicos se decidiram pela solidão. Um caminho difícil e doloroso, pois todos nós somos seres necessitados de afeição. É compreensível portanto, que muitos autênticos celibatários, por se tornarem demasiadamente críticos, se tornem também amargos, melancólicos, pessimistas quanto ao futuro.O filósofo alemão Arthur Shopenhauer, assim como alguns profetas bíblicos constituem exemplos dessa espécie de indivíduos. Esse é o real peso da solidão, e interiormente carrego também esse fardo. 

 Contudo, existe uma grande polêmica a respeito do celibato. Principalmente dentro das igrejas evangélicas. A reforma protestante outorgou ao ministro o direito de casar-se, contrariando a exigêao ministro o direito de casar-se, contrariando a exigo para a verdade, ta: assaltos, sequestros,ncia religiosa católica da castidade permanente. Por esse motivo, o celibato se tornou marginal no cristianismo reformado e evangelical, partindo da premissa de ser apenas um instrumento de defesa da instituição e sua perpetuidade ao longo dos séculos. Convenhamos, há o bom celibato e o mau celibato: o bom celibato nasce da tradição profética num chamado radical à exigência por justiça diante da opressão, independente das conseqüências geradas por tal apelo. É se oferecer em sacrifício à causa da verdade. É inevitável que profetas sejam mártires, e portanto, não poderiam ter filhos e uma esposa, caso contrário deixariam à mingua uma viúva e filhos órfãos. Profetas estão destinados ao martírio e dessa maneira são condenados a solidão. O bom celibatário é aquele que oferece a vida pela sua fé, sendo extremamente útil em lugares de extrema dificuldade de expansão da fé cristã, como é o caso da China, da Coréia da Norte e do Vietnã.
O mau celibato nasce justamente da má compreensão desse chamado: da sua institucionalização. A proposta de paz por meio da institucionalização de uma religião antes perseguida é tentadora. Quando isso acontece, martírios são desnecessários, a morte é desnecessária, a solidão também. Seria natural que o casamento fosse estimulado e concedido aos clérigos. Contudo, com tal privação, através da institucionalização desse costume, apenas expressa o desejo de se defender os interesses financeiros de uma instituição, assim como um pai protege sua família: é ausente de qualquer senso crítico. 

Infelizmente essa é a parte fácil do celibato. A parte mais difícil consiste na disciplina do desejo. Enxergar o sexo oposto como uma divindade possui como benefício gerar em nós um compromisso com a pureza quando vinculados com a fé. Fruto de uma mentalidade inocente e ingênua. Quando perdemos esse sentimento (pois é natural que surjam decepções), retiramos o objeto do nosso amor do pedestal, e passamos a enxergá-lo como um simples ser humano: cheio de defeitos, vícios, qualidades e virtudes. O amor romântico cega, ou pelo menos turva os olhos. A tolerância que se faz a humanidade do outro, nesses casos, como oriunda de um rompimento de expectativas, apenas expressa o sintoma de desprezo e indiferença e não necessariamente de aceitação. Expressa apenas que o outro deixou de ser atrativo justamente por ser humano e não uma divindade. Não é perdão. Como resultado as relações com o sexo oposto passam a ser reguladas ou a partir de afinidades naturais, gerando amizades ou então por puro desejo carnal. Podemos escolher deixar de amar uma mulher (as alternativas que nos levam a essa escolha podem ser inúmeras), contudo, bem mais difícil consiste em não deixar de desejar-la. Esse é o problema.

Infelizmente vivendo, ainda estou ainda à procura de mais algumas respostas e esclarecimentos....

O Demônio do Profeta João

Lc.7.33-35.
Ora, é fundamental para um membro da cristandade que tenha um bom testemunho e uma moral exemplar. Jesus não tinha; frequentemente associado a marginais, quebrava o sábado e contestava a autoridade dos sacerdotes. E ainda justificava sua conduta como obediência a vontade de Deus. Infelizmente eu não tenho essa coragem, infelizmente não posso afirmar que sigo a Cristo, assim também, como não podem afirmar muitos outros membros da cristandade como eu. Prefiro o lugar comum de ser um bom cidadão e cristão, e quando por algum descuido, ser invadido pelo sentimento de culpa.

 Se Jesus novamente estivesse fisicamente entre nós, é certo que estaria onde sempre esteve: concerteza, comendo pão, bebendo vinho, ao lado de seus amigos publicanos e de toda a sorte de pecadores. E se por acaso ele fosse membro de uma igreja, sua conduta provocaria um escândalo tão grande, que alguns membros indiguinados da cristandade, o sufocariam de questionamentos, pelo bem da doutrina e dos bons costumes, acharia melhor exigir-lhe uma retratação, e caso este se negasse, uma punição exemplar, e até mesmo a exclusão. Infelizmente, fazemos da doutrina denominacional e do que afirma o pastor, algo melhor do que Cristo.

Contudo, Jesus não é um membro da cristandade. Ele é o seu objeto de veneração. Existe nesse aspecto, uma perversão tão grande dentro da instituição cristã, onde Jesus, o objeto de veneração, está separado dos seus adoradores, justamente dentro do templo e por causa dele. O Jesus que cultuamos não é o mesmo do novo testamento, justamente porque o Jesus do novo testamento come pão, bebe vinho e é amigo de toda sorte de pecadores. Nós ao contrário, com exceção do momento litúrgico (e porque não dizer teatral) da ceia, preferimos nos abster deles. Mais do que isso, os evitamos e por conta disso, temos uma consciência tranqüila. Julgamos-nos santos justamente por não nos envolvermos, tal como o sacerdote da parábola que passa de largo pelo caminho onde se encontra estirado no chão o viajante.

Queremos ser iguais a Jesus Cristo, contudo, nos parecemos mais com o asceta João Batista e o seu demônio. Que condena o pão e o substitui por gafanhotos, o vinho por mel e os pecadores pela vida eremita nos desertos.

sábado, 2 de outubro de 2010

Eu, Uma Enciclopédia?

Interpretam-me como um conjunto bem ordenado, contudo, pouco sistemático, de teorias e autores. Em suma, interpretam-me como uma grande enciclopédia. Contudo, o que há de espiritual nas enciclopédias? Absolutamente nada. Ninguém lê uma enciclopédia como lê a bíblia. Estou fadado ao descrédito como aspirante a reverendo. Interpretam-me como um teórico cristão e que por isso mesmo, como alguém que não alcançou a condição fundamental de todo crente de abrir-se à eternidade. Ora, um teórico do cristianismo não necessita ser propriamente um cristão. Ser bom observador e crítico já lhe é suficiente. Tal ausência de estímulo promovem em meu interior um profundo desinteresse. Às vezes penso em abandonar tudo e tornar-me um xamã, de curar alejados e cegos ao custo de algumas moedas. Faria mais sucesso. Contudo, pernas de carne e ossos podem levar os homens até onde suas forças lhe permitirem ir, e olhos novos, com o tempo, voltam a enfraquecer. O que então vale mais? Acho que prefiro então continuar sendo uma simples enciclopédia...

Os Discípulos Dormem

Lc. 22.39-46

Os discípulos dormem. Justamente quando chega o momento em que o Senhor, em agonia, mais precisa deles. Justamente quando Jesus está ameaçado a ser entregue, sob o risco de ser expulso do mundo pelos homens. Os discípulos continuam a dormir e leis injustas são criadas e homens perversos triunfam, e Jesus, ainda em agonia, corre o risco de novamente ir à cruz e lá morrer. Novamente querem expulsá-lo do mundo. Todavia, eu me pergunto: será esse o destino inevitável do cristianismo? De ter sempre um Cristo que angustiado chora pelo seu destino eminente, e de discípulos que dormem? Os discípulos dormem e por isso estão indiferentes, mesmo estando tristes. "Levantai-vos". É o clamor de Cristo aos seus discípulos. É o clamor de Cristo a nós. "Levantais-vos" é o convite de amor feito pelo Senhor diante da nossa indiferença ao seu próprio sofrimento.


O que queremos? Que Cristo retorne à cruz ou esteja para sempre no trono, onde reina soberano? Mais do que de Deus, a escolha é nossa.

Boas eleições e bom voto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Mundo é Imenso Para Olhos Pequenos

Um pardal pousa em minha janela. Parece olhar o horizonte. 

Imediatamente essa visão provoca em mim um rápido lampejo de inspiração idílica. 

Tento compreender sua visão do mundo: ser um pássaro parecer ser assustador. Em terra firme, seus olhos pequenos parecem enxergar um mundo de gigantes. Para quem não sabe voar, uma experência como essa expressaria apenas medo e pavor, expondo a fragilidade de ser tão pequeno diante de um mundo tão grande. Todavia, por saberem voar pardais não sentem medo. Conseguem elevar-se diante dos altos prédios comerciais, das cidades, das pessoas. Olhando de cima, as casas, os carros, as pessoas, vão diminundo até parecerem com as formigas de um gigante formigueiro. Do alto, todo pássaro é grande.Voar não significa apenas uma experiência de liberdade, mas a ausência de todo o medo. 
Eu sou um pássaro preso na terra. Mas almejo ardentemente o céu. E enquanto eu não posso voar, observo o mundo ao meu redor. Até o horizonte. Para pássaros, viver na terra pode expressar uma experiência de medo e terror, de angústia. Todavia, uma experiência que não é permenente, mas provisória.

Livre, mais importante do que saber para onde vai, é saber onde está. Pássaros não precisam se preocupar em ir para o céu: eles já estão lá.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Que é o Amor? - 1ª Co. 13.1-13.

O que é o amor?

Essa pergunta não me deixa dormir. Uma questão como essa talvez me consumirá até o último dia de minha vida.

Méritos ou conhecimento não definem boas pessoas. Dons ou ideais elevados também não. Todo mérito, conhecimento, dom ou ideal sem amor, para Deus não possui significado algum. Pelo contrário, falsificam pessoas e intenções. Não podemos definir o amor através dos nossos méritos, dons, conhecimento, altos ideais ou fé. Isso por si só elimina qualquer possibilidade humana de amar. O amor é uma impossibilidade humana, e por isso mesmo, somente pode ocorrer por meio de um milagre.

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

Curioso como o apóstolo Paulo define o amor. Ele confere características humanas a um sentimento que nossa civilização entende como abstrato. Em outras palavras, o texto de 1ª Coríntios 13 não pretende nos esclarecer o que é o amor. Isso porque não faz do amor um sentimento abstrato. O texto se propõe a dizer quem é o amor. Sendo assim, o texto não esboça uma série de condições para que uma pessoa possa amar, pelo contrário, ele afirma que a única condição para amar verdadeiramente é ser preenchido pelo amor. 

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor é perfeito, ele nunca falha (v.8). Uma característica que somente pertence a Deus. Em outras palavras, Deus é amor e só ele é o amor, divino. Onde há amor há a presença de Deus. Há a presença do próprio Cristo. E essa presença não pode ser confundida com nossos méritos, nossos dons, nossos ideais, pois quando isso acontece, nosso culto se volta inteiramente para nós mesmos e não para Deus. É por isso que o apóstolo Paulo deixará bem definido que o amor é mais importante que tudo isso.
O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Diante do amor, que é perfeito, tudo o mais é aniquilado. Toda profecia, toda língua, toda ciência. Justamente porque tudo o mais é imperfeito diante da perfeição.

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

 Instala-se em nós um permanente sentimento de dependência. O imperfeito diante do perfeito é iluminado por completo e confrontado com suas misérias. Diante do amor tudo desaparece: toda profecia, toda ciência, toda fé. Menos o homem. Sem profecia, sem ciência, sem fé. Nu, frágil e indefeso. Despido das suas ilusões meritórias. Totalmente dependente de seu criador. Criatura. É por isso que diante do criador, todo o joelho se dobra, confesso e agradecido.

Oh Senhor, somos todos dependentes de ti.

Soli Deo Gloria.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Ofício Maldito do Escritor

É impressionante como entre alguns literatos o exercício de uma boa escrita é proporcional a incapacidade de ler bem, particularmente entre aqueles que se dedicam a ficção ou a poesia. Alguns escritores ao fazerem menção de seus trabalhos, seja em feiras literárias como a Flip ou as bienais do livro no Rio ou São Paulo, nos dão a impressão de estarem lendo bula de remédio ou um tedioso relatório financeiro. Tédio. O mais revoltante são os aplausos seguidos de apresentações desse tipo. Belíssimas apresentações de absolutamente nada. Foi-se a época quando bons escritores eram também bons leitores. É decepcionante, pois os piores leitores consistem justamente no seleto grupo daqueles que se dedicam a produzir boa literatura. Posso citar exceções, Elisa Lucinda é um exemplo: interpretando o que escreve, confere alma à tinta morta e fria presa no papel. Todavia, é uma exceção, e são as exceções que me permitem ainda ter alguma esperança no ofício da grande arte de escrever.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Citações - Lutero

"Por isso, em essência, a missa (o culto) propriamente não é outra coisa que as citadas palavras de Cristo: “Tomai e comei” etc., como se dissesse: “ Olha, homem pecador e condenado, pela mera e gratuita caridade com que eu te amo, pela vontade do pai misericordioso prometo-te por estas palavras, a remissão de todos os teus pecados e a vida eterna, sem nenhum mérito ou voto teu. E para que estejas completamente seguro dessa minha promessa irrevogável, entregarei o meu corpo e derramarei o meu sangue, confirmando com a minha própria morte essa promessa e deixando-te ambas as coisas como sinal e memória dessa promessa. Toda a vez que o repetires, lembra –te de mim, anuncia e louva essa minha caridade e largueza para contigo, e dá graças".

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Santa Barriga


Não terão conhecimento os que praticam a iniqüidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão, e não invocam ao SENHOR? (Salmos 14.4).


Desculpem-me alguns santos apóstolos: eu não pretendo ferir a imaculada santidade de vocês. Contudo, não pude deixar de perceber que grande parte dos nomes da teologia brasileira e mundial em evidência, constitui literalmente de “homens de peso”, quando não, possuem uma leve e curiosa saliência estomacal, transparecendo assim que o tamanho de seu estômago indica para nós o quanto para esses homens custa trabalhar para Deus.

Eles cobram caro! E para tanto fazem seu preço. Enquanto engordam seus estômagos e contas bancárias, seu povo morre à mingua com a esperança de uma vida mais digna. Perdoem-me os abençoados pela genética, minha crítica se limita apenas aos amaldiçoados pela compulsão da glutonaria.

Talvez possam acusar-me de ascético, contudo, nunca de mentiroso.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Carta ao Povo Brasileiro

Quão pesadas serão as letras que vos passo a escrever! Somos consumidos por nossa miserável alegria, por nossa maldita sensualidade, nós os brasileiros, somos como qualquer prostituta por aí, apanhamos feio dos nossos opressores e continuamos a amá-los como se nada tivesse acontecido, tráfico de drogas, de armas, de órgãos, de vidas! Até onde isso vai parar? Respondo: isso não vai parar, é como um vício e sua cessação produziria crise de abstinência terrível, violenta, aliás, a violência é algo que já nos acostumamos, talvez pelo fato de ser tal costume tão próximo da nossa natureza, tudo isso prova que nós, os brasileiros, somos grandes viciados que constantemente são privados de seus vícios, daí as favelas e seus governos singulares, sua cultura, sua vida, daí as greves nos hospitais, as mortes. O brasileiro aprendeu a conviver com a morte, e mesmo assim continua sambando, jogando futebol, fazendo seus churrascos, bebendo sua cerveja, seu vinho barato, ouvindo seus pagodes, funks e axés, com uma religiosidade tão pobre e fútil, as vezes infantil, inocentes como qualquer criança, desconhecem os perigos do verdadeiro.

Convivendo com a morte o brasileiro passou a querer fugir dela (talvez nossas lágrimas aos mortos já não tenham o mesmo valor, mesmos quando tais mortos somos nós mesmos, os mortos já não podem chorar mais, nem por si mesmos), o brasileiro passou a sonhar, daí sermos o que somos, simplesmente um sonho. Nesse sonho nós não vemos a morte, estamos cegos por nossos vícios, embriagados por um vinho que só os mortos beberiam, daí a crença de que amanhã teremos mais empregos, mais saúde, mais educação, de que todo governo que entra é bom e todo governo que sai é mal. Hipócritas ! Nenhum deles é Deus, embora queiram tanto isso. Pagamos pela burrice dos governos, pagamos pela nossa própria burrice e o que sobra, pagamos para sustentar nossos malditos vícios, do nosso sonho, do costume de ir ao bar toda sexta - feira com os amigos, tendo sempre uma oferecida qualquer para aparecer e ficar ao nosso lado, com bebida e cigarros tornamo-nos preparados para qualquer coisa, desde uma guerra mundial até uma aula de epistemologia.

E depois disso tudo, ainda temos a coragem de, ouvindo os nossos cds de rock, fazermos o símbolo do deus chifrudo, criticamos os devotos e crentes que dão seus dízimos e ofertas, dizendo que enriquecem a pastores e padres com uma calma simplesmente anormal. Tendo a convicção de que somos livres, anarquistas, de somos deuses e que temos os céus a nossos pés ( que belo céu nós temos...). Onde está o brasileiro ? Este já morreu e não sabe disso, sua bandeira verde, amarela, azul e branca, desbotou-se e perdeu toda a sua cor, nossos hinos à pátria foram substituídos, juntamente com nossos atos solenes por um culto em louvor da morte, do silêncio que nela está contida , na passividade social, seríamos mais autênticos e leais a nós mesmos, ou então, podemos continuar sonhando. Mas o que mudará ? Toda esperança será inútil.

Por onde quer que olhamos, por nossas praças e ruas, vemos mendigos que pedem esmolas, garotos anônimos que vendem balas, fazem malabarismos nos sinais e na vida, enquanto que outros preferem ganhar a vida de outro modo....vemos meninas, que perdem na flor da idade o amor próprio, que se prostituem. E nós o que fazemos? Fechamos as janelas dos nossos belos carros com medo de sermos assaltados, temos medo sim, da nossa crise de abstinência forçada, mas não fazemos nada a respeito. Porque? Porque acreditamos que o governo cuidará do assunto, " lavamos nossas mãos " . Quantos de nós, só porque pagamos em dia nossos impostos e contas, acreditam que são bons cidadãos! Só porque não matamos ou roubamos, acreditamos que iremos para o céu! Ser omisso aos problemas da nação é ser condizente com todos os pecados que ela produz. Quem se salvará no mundo? O fato de que o outro rouba significa que de alguma forma fui omisso ao seu crime, logo de que também sou um ladrão. Coitado dos hipócritas! Por não matarem ou roubarem são também assassinos e ladrões.

A hipocrisia é a característica mais sádica da natureza humana, e a nossa, a do brasileiro é a mais perversa, porque é feita na maioria das vezes por inocência, por impulso, injustificável, é a nossa vivência, por isso muito mais intensa, somos alegres à toa e nossa tristeza é simplesmente motivada por uma privação, a de nós mesmos, nunca fomos tristes de verdade, muito menos alegres, simplesmente deixamos a vida passar com seus sorrisos e lágrimas. Não se percebe que cada sorriso e lágrima são singulares em si mesmos ? Queria eu dizer que nos tornamos como animais, mas nem mesmo eles são assim, sendo por demais superiores a nós, pois como diria Kierkegaard, os animais não possuem o hábito de se julgarem entre si. Somos preguiçosos, tendo o hábito de cometer as maiores atrocidades e loucuras só para sentirmos que somos gente, de fato, somos carentes de uma identidade, isso prova que nem gente somos de verdade,nosso vício, nosso sonho e nossa hipocrisia fazem isso.

Nada disso é suficiente para descrever o quanto somos baixos, aliás, é impossível nos descrever, descrevemos sim,o que somos em nossos sonhos, isso porque sonhar é fácil, assim como ser enganado por toda a ilusão que dele provêm,todavia, quanto mais é a visão que temos de nós mesmos,assim como do mundo que nos envolve,mais nos aproximamos de uma realidade maior, uma realidade que desata nossos olhos, assim como no mito platônico da caverna nos perguntamos : É isso a realidade ou estou sonhando? Embora a pergunta permaneça, só nos resta seguir em frente, e é em cada passo dado que temos a possibilidade de mudar e construir aquilo que o sonho só nos tirou,ou seja, a nossa própria identidade. E para tanto temos que romper com toda a melancolia do mundo e aniquilar de si toda a sua futilidade, ousemos ser críticos até o limite e profanos à sociedade que ainda sonha, que vive ainda em seus mitos, por mais convincentes que eles sejam, ousemos ser críticos mesmo quando a crítica nos faltar, duvidemos então de tudo.

Um forte apelo exagerado e até mesmo desnecessário à sexualidade, o costume de se festejar as futilidades e desprezar o vital, idolatria inconseqüente ao vício sem contudo abdicar ao " culto cristão" assim vivem a maioria dos homens, numa eterna contradição. A raça está impregnada de poesia, a raça está impregnada de um tipo de pathos que a leva à morte indolor, por isso estar os homens cegos diante de suas paixões. seu grande defeito é não se cansar do vício, não se cansar da morte, isso porque novos homens estão surgindo no mundo, e nos olhos de quem os vê uma esperança, novos homens surgem, contudo, não surgem com eles uma nova sociedade, eles são uma mentira,, assim como também os são aqueles que os enxergam com ternura e esperança. A máquina do mal ainda não atingiu a sua decrepitude, é uma torre de marfim que não se pode invadir por fora, mas por dentro, pela subjetividade.

" Poderia eu ser um síntese, todavia, seria demasiado fácil, sou o que está por acabar, e como tal sou só um olhar,um olhar meu mas também um olhar do outro, nisso eu sou também o outro, eu sou todos os olhares possíveis e quando me torno passivo a esses olhares que me cercam, eu me torno mundo, não um mundo meu, mas dos outros. Meu mundo é o meu olhar que tenho em relação com os outros enquanto entes, por outro lado, o meu olhar sobre mim mesmo não me faz mundo, mas ser,um ser que se manifesta quando deixa de ser o mundo dos outros, através de um rompimento, fazendo dos outros o mundo do ser, assim se manifesta de uma forma clássica a consciência, como fuga da entificação. Meu grande defeito como escritor é de não ter o mínimo de poesia naquilo que escrevo, de não tentar hermetizar numa parábola ou aforisma, algum código que meu leitor deva interpretar. Sem poesia minha filosofia é comum, sem ironia possuo o defeito de não desafiar ou até mesmo provocar o leitor, mostrando por isso toda a minha decepção com a raça, a raça dita humana e os seus olhares

Sinto grande apatia com o meu mundo, assim como com o mundo dos outros, talvez ambos não me sejam suficientes e sei que de fato não os são, por isso, acreditar nesse mundo de mentiras ( Sl. 116.11) me mataria, e minha morte não teria valor algum, além disso, sei que parte de mim, do eu decepcionado que sou é uma mentira, figura feita por esse mundo maldito, por isso, sei que meu valor não pode estar em mim ou no mundo que me rodeia,seja este mundo compreensível para mim ou não, mas fora de ambos, em Deus, e encontrando a Deus, se superar foi todo o remédio para a minha " doença mortal " , para minha decepção um tanto que desesperada.'

Ter a sensação de que se está sendo observado, não se sabe de onde, não se sabe por que, muito menos se essa sensação é real, assim como todo o seu contexto, simplesmente, através de um sentimento que os filósofos chamam de angústia, nos petrificamos e passamos a ser guiados, nos levando dessa forma entre as fronteiras da paixão e da loucura, que alguns denominam fé.Essa angústia é um sentimento que quando conhecemos sua procedência, o elemento que nos petrifica pelo fato de se estar diante dele como algo impotente, nos direciona à um relacionamento para com o mesmo. Nossas impossibilidades, por gerar impotência ante as situações que se passam em nosso interior, só nos mostra a existência de um poder maior que nos guia, no entanto, que nos pode levar a um tormento que nos dilacera a alma.

Meus Dezoito Anos

O que segue é um texto antigo que escrevi quando completei meus dezoito anos (hoje tenho vinte e quatro. Uma época de ruptura de paradigmas e ilusões. O início do meu amadurecimento como homem e ser humano. Se trata de um texto melâncólico e poético, que sintetizam reflexões que amadurecidas anos depois irão produzir meu livro "Biografia Anônima" e seu discurso predominantemente crítico sobre o conceito contemporâneo de amor. Uma diferença drástica. Se neste texto, a primeira impressão leve a compreender o autor com certa inocência, é correta tal interpretação. Os resultantes deste texto ao longo do tempo produziram reações bem diferentes.




Meus Dezoito Anos


A vida é uma dor, a maior de todas as dores, tão intensa que chega a deixar de doer, é só por isso que muitos homens ainda conseguem rir. Se eu fosse correspondido pelos sorrisos que dou, pelas palavras de ânimo que saem da minha boca, mesmo quando em mim não há ânimo algum, e principalmente pelo que eu sou jamais eu poderia dizer: " a vida é uma dor..." Tenho tantas dores no meu coração. Nunca cheguei a ser amado por uma mulher, eu sempre fui tímido no amor e para piorar, nunca correspondi ao sonho de beleza de nenhuma jovem, me pareço muito com o patinho feio... Estou destinado a viver só. Quem conseguiria resistir com as minhas dores? Quem continuaria a querer viver? Eu já não vivo. Não existe em mim qualquer ideal de felicidade, já não aspiro nada de hoje ou de amanhã, para mim só me resta a obrigação de suportar cada dia por vez. E isso é só o começo: tenho uma fama muito peculiar: eu sou o inútil, o desgraçado, a praga e etc. Eu sempre estive muito próximo da escória, eu sou o enfermo e a doença.

Como é bonito ver os sorrisos das mulheres, todavia, eles me fazem chorar, porque eu sei que nenhum deles foram dados a mim. Como eu poderia ver então beleza no mundo? Recentemente algo quase me fez chorar: uma mulher me disse que eu dei sentido a vida dela, entretanto ela está tão longe de mim...minha relação com as mulheres é uma ironia. Se pareço muito trágico em minhas palavras, saibam que minhas palavras só demonstram o que eu vivo, e do que jamais eu posso escapar, falo de uma forma trágica porque minha existência é uma tragédia.

Perdi secretamente o gosto pelos elogios, não os suporto mais, mesmo os que são ditos verdadeiramente por um bom coração. Eu perdi a esperança em mim mesmo e não sou digno de pena, só espero não viver para sempre com meus pais. A coisa que eu mais anseio agora é a solidão, porque a solidão me quer, talvez a minha angústia aumente. Eu não sei o que me espera daqui a dez minutos, sendo assim, o que seriam dez minutos? Dez minutos seria nada...O que será da minha vida daqui a dez anos? Eu nada sei sobre a minha vida...eu só sei que ela é um nada. O que há então para comemorar? Absolutamente nada, porque nada é a vida que vocês comemoram hoje...

Sou grato a muitos amigos, meu aniversário de dezenove anos demonstrou que sou querido por aqueles que na ocasião nem me conheciam direito, todavia, o difícil é achar alguém que chore comigo. Parte dessa ausência é culpa minha. Com quem eu já chorei? Eu mereço chorar sozinho. Não acredito mais nos castigos de Deus: a idéia de castigo sempre esteve em mim vinculada ao conceito de se sofrer uma pena sendo inocente; só Jesus foi castigado, eu por outro lado sou sempre o culpado. Toda a alegria de mais uma primavera amanhã vai passar, tudo retornará ao normal, tudo será para mim, triste como antes. Me censurem os teólogos e todos os que e consideram cristãos. Quem é capaz de censurar as lamentações de Jeremias? Quem é capaz de censurar as lamentações de Jó ( Jó 30 )? Quem é capaz de censurar as lágrimas angustiantes do cristo no monte das oliveiras? Quem é capaz de censurar-lhe o seu " ...eloi, eloi, lama sabactâni ? " ? Se eu choro e lamento quem é capaz de me censurar? Não espero compreensão, só Deus é capaz de me compreender, um Deus que eu e nem ninguém pode ver. Aproximo-me então da loucura. Quem poderia justificar o ato de Abraão em sacrificar o seu próprio filho Isaque, para um Deus que ele não via? Ninguém podia justificar Abraão a não ser o próprio Deus, um Deus que nem o próprio Abraão via. Quanta loucura em Abraão! Uma loucura do tamanho da sua fé.

Não sei o que me espera amanhã, mas que o amanhã seja algo que me espere, que eu possa alcançar, e se eu não puder alcançar, que minha mensagem tenha o poder de fazê-lo por mim, mas para todo aquele que se sente como eu. As pessoas me observam e eu odeio isso, algumas para ter razões para me censurar, me chamar de pecador, de condenado ao inferno, outros para me admirar. Quantas mães já me quiseram apresentar para suas filhas! Quantas mães já me tornaram um modelo ideal para seus filhos! Cheguei à conclusão de que eu não sou nem um santo nem um pecador, eu sou ambos, eu sou um paradoxo. Como você me vê? Não há alternativa para essa pergunta: eu não posso ser definido, só Deus me define, mas quem já viu a Deus? Definir-me pertence a Deus e a mim, a mais ninguém. Diante de Deus todos os homens estão sós, e eu também, só o que me resta nessa vida é a solidão, não só a mim, mas a todos os homens.

O que me resta? Sou um nada que é só, um nada que é só nada, e assim eu sou eu mesmo. Não posso escapar de ser a mim mesmo, não posso escapar de condenar toda a futilidade do mundo e das pessoas reduzidas às coisas. Eu não sou uma coisa, eu não sou um objeto, mas muitos me querem assim, e se eu faço objeção a isso, tenho a facilidade de magoar. Prefiro então me isolar em mim mesmo. Quem é Diogo? A língua latina me diz que sou inteligente, gentil e educado, mas também me diz que é um dos nomes medievais atribuídos ao diabo. Os gregos com seu didaticus dizem que sou didático, dado ao ensino. A gentileza, a educação e a inteligência também podem servir como instrumento de manipulação do mal através do ensino, o mal manipula através do que o manipulado acredita como bom. A bondade jamais manipula, ela é liberdade, por isso é sempre considerada pelo manipulado como uma coisa ruim. A dor que eu sinto diante da vida nada mais é do que o sintoma da minha própria metamorfose, do demônio que Deus quer reabilitar a anjo de luz. Os demônios do inferno não sentem essa dor da vida, por isso eles jamais podem ser por Deus reabilitados. A metamorfose é uma dor necessária à todo homem, e se é necessária, que os homens me deixem com a minha dor.

A vida é uma dor, mas a dor redime e nos transforma em algo mais duro, impenetrável. Não sou nenhum sádico ou masoquista em dizer isso : se a vida é uma dor e a dor redime, a vida é em ultima instância redenção. Eu vivo e na minha vida eu sofro e me redimo, eu sou redimido enquanto vivo a minha dor. Só Deus me define pois só Deus me justifica, só Deus me redime. Deus me redime pela dor, uma dor que é minha e que permanece em mim, permanece porque nela Deus visa em mim algo maior, ser aquilo que nasci para ser, para qual Deus determinou e que ainda não cheguei a ser. Alcançar a redenção é superar a dor, é alcançar aquilo que comumente se entende por felicidade, mas se a vida é uma dor, a felicidade noutro modo não está na vida, ou no que se entende vulgarmente como tal, a felicidade está na superação da vida. Não entendo o termo superação como um " estar além ", estar além da vida significa uma meta da vida. Superação da vida é uma super - ação, é uma plenitude de vida e plenitude não está no viver aqui e agora, pois o aqui e o agora é só vida, é dor, a plenitude está em sempre viver, sem aqui e sem agora, a plenitude da vida é uma vida eterna, a plenitude da vida é a eternidade, e a eternidade é a redenção, é a felicidade, liberdade do julgo escravizador do tempo.

As palavras eloqüentes permanecem vazias para aqueles que não as entendem, todavia, não há um homem sequer que não possa compreender que a vida é uma dor, e que por isso também possa compreender que sua redenção está nessa dor, superando assim a vida, na eternidade. Enquanto vivo a vida do aqui e agora como meus fúteis vinte anos, olho para a frente e anseio ardentemente a eternidade, e isso, enquanto vivo, já é uma nova dor. Cristo com sua morte e ressurreição, com seu sangue sua dor me ofereceu a eternidade, e para recebe-la aceitei um compromisso : tenho que compartilhar com cristo o meu sangue e aminha dor também, eu tenho que aprender a compartilhar uma cruz, os cravos, as lágrimas, só para depois aprender a compartilhar o pão. É necessário sentirmos as dores do mundo para que possamos cuidar dele melhor. Essa é a vida que eu quero e se ainda não a tenho ainda, que minha dor permaneça até que eu alcance a redenção em Cristo Jesus.

Já estou crucificado, todavia, ainda não chegou o meu momento de render o espírito, agonizo então na minha cruz..." ...porque o amor é forte como a morte.." Já dizia Salomão nos seus cânticos à filha de Faraó, só é capaz de amar aquele que é capaz de morrer, Deus só nos ama porque morreu por nós, e a intensidade do seu amor está no tipo de morte que sofreu...o amor está na dor e a intensidade do mesmo está no tipo de morte que se sofre...Deus me fez morrer para poder amar de uma forma que eu mesmo não conhecia, Deus me fez morrer para amar até a morte...Amar até a morte significa amar em todas as circunstâncias, mesmo quando não se é amado...eu já estou morto, entretanto, Deus requer de mim amor. Amar é um desafio mortal, se estou pronto para tanto eu não sei, só o que me cabe em toda a minha solidão e dor diante do mundo e da vida é diante de Deus dizer : " eis -me aqui..."

Toda a minha indignação contra a minha própria existência, suscitava em meu interior questões que eu mesmo não podia responder: Porque eu sofro assim? Porque tudo aquilo que durante anos eu planejei e construí para mim se desmorona assim tão fácil em segundos? Quando mais ninguém podia me dar uma resposta, Deus assim o fez, no silêncio: " No princípio criou Deus os céus e a terra." Assim nos diz o gênesis. Eu nada crio, só Deus cria, porque só se pode criar do nada. Deus cria do nada, e eu me pergunto: O que eu me tornei? Tornei-me absolutamente nada... é a partir desse nada que Deus resolve criar, do nada que sou eu, mas eu nem sempre fui um nada, eu tive sonhos, projetos para mim mesmo, todos ao longo do tempo foram destruídos, e sei que o foram pelo próprio Deus, a fim de que pelo nada que sou, Deus se manifeste como o meu criador. "...Eis que faço novas todas as coisas..." Assim diz o senhor Jesus no apocalipse, tudo isso me ensinou que todo grande fim é o sinal de um novo começo, e que toda destruição é sempre a construção de uma coisa nova, e é isso o que eu sou.

Diálogos Zine nº 02




Em breve.

sábado, 7 de agosto de 2010

Citações - Paul Tillich




" Existem muitos cristãos existencialistas; e visto que são existencialistas, eles indagam sobre a pergunta, mostram a alienação, mostram a finitude, mostram a falta de sentido. Visto que eles são cristãos,respondem estas questões como cristãos, mas não como existencialistas. Por esta razão, não creio que a distinção muito comum entre existencialismo ateu e cristão faça qualquer sentido. Na medida em que um existencialista é teísta, ele não será um existencialista ou não será realmente um teísta. No que pessoas como Jaspers, como Kierkegaard, como Heidegger em seu último período místico, como Macel, são cristãs, ou finalmente religiosas, ou finalmente místicas, elas não são existencialistas mas respondem a seu próprio existencialismo, e isto deve ser claramente distinguido. O existencialismo descreve a situação humana, e, como tal, é um elemento decisivo no pensamento religioso dos nossos dias e na teologia cristã".

Paul Tillich in Textos Selecionados. p44.

Porque não crer no que crê o ateísmo 1ª Parte

A) O Problema do dogmatismo na religião e nas ciências .

O ateísmo, enquanto instrumento de crítica objetiva (científica) do teísmo institucional, se mostra tão dogmático quanto este, e neste aspecto cristãos e ateus possuem cosmovisões muito similares. A tese de que a objetividade é o meio de conduta para a verdade, é comum a ateus e cristãos dogmáticos.

Lendo Nietzsche e Marx, percebi que a transformação dos meios de produção, que o desenvolvimento da técnica e da investigação científica é a responsável pela transformação de toda a cosmovisão social, religiosa e etc. Em suma, que a ciência transforma a vida e esta, transformada, transforma a ciência, a religião e etc. Em outras palavras, que a objetividade não é o meio de condução para a verdade, mas é o meio de condução para a invenção de uma verdade, exatamente porque a objetividade ao transformar a vida, é responsável por transformar-se a si mesma, perdendo todo o seu caráter absoluto. A ciência não é objetivamente absoluta, assim como não é objetivamente absoluta a religião. (paradoxalmente nem mesmo o que estou escrevendo agora deve ser considerado algo absoluto).

Por fim, minhas reflexões amadureceram neste aspecto na leitura do livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” de Thomas kuhn, onde a idéia de verdade científica é questionada. Concluindo, tanto o ateísmo quanto o teísmo dogmático dão muito a desejar naquilo que prometem e que toda a verdade, seja religiosa ou científica somente pode ganhar adesão existencialmente, e para isso, tanto a ciência quanto a religião possuem particularmente um método específico para convencer as massas. Sendo assim, jamais posso criticar um postulado científico ou doutrina religiosa em si mesmo, exatamente porque o que deve ser criticado é exatamente a maneira como cada um independentemente convence as massas de sua veracidade.

O que sustento em minha primeira exposição é que, a afirmação categórica ateísta "Deus não existe" é essencialmente dogmática, e como todo dogmatismo, sempre está procurando justificações para a sua afirmação, e nesse sentido o ateísmo desenvolve estreitas relações com o próprio dogmatismo cristão. (ex: "Deus não existe porque....."; "Deus existe porque...."). É exatamente esse "porque" que define o dogma, e em todo dogma está inserida um conceito de verdade "militante", ou seja, que tenta contradizer a oposição, percebo muito isso entre ateus e cristãos. O conflito ideológico é sempre oriundo de duas posturas ideológicas antagônicas entre si, essencialmente dogmáticas. Mas vamos dar um fim a questão: O que o ateísmo promete? A grande promessa do ateísmo é exatamente, no que se refere a uma deidade pessoal (teísta), negar todas as possibilidades de sua existência de uma maneira categórica, onde as possibilidades, por mínimas que sejam, são sempre viáveis (a teoria do caos reflete bem essa idéia). Se as possibilidades mínimas também são viáveis, nos encontramos então num paradoxo onde não podemos afirmar categoricamente nada, não podemos ser dogmáticos, em suma, acredito que tanto para o ateísmo quanto para o cristianismo, seriam fundamentais uma postura agnóstica de verem o fenômeno religioso, sempre abertos as possibilidades, sem esse "porque"...

Inserida no método científico contemporâneo está implicitamente estabelecido um paradigma de convencimento, que é exatamente a idéia de funcionalidade. Além disso, por participar ativamente na transformação social, no rompimento com antigos paradigmas legais, morais, científicos e religiosos, a ciência também é responsável por 'carregar" a consciência individual para tais rompimentos. E isso já está implícito na dialética social, na formação e transformação da cultura. O método de convencimento implícito na produção científica não é algo consciente, exatamente porque participa na construção da consciência, localizando-a no tempo, historicamente. Isso é constantemente repetido por Marx em sua "Ideologia Alemã", juntamente com Engels. Portanto esse método de convencimento não é criado à parte da ciência em si, mas está em sua própria natureza, na natureza da própria ciência.

Sei que ateísmo e conhecimento científico não são sinônimos, todavia, o que percebo é que muitos ateus sustentam suas posturas filosóficas sobre o fenômeno religioso, através do cientificismo e o fazem em razão da própria idéia de funcionalidade, cujo fundamento é exatamente o de construção e re-construção social (segundo o pensamento de Marx), sendo assim, não posso conceber o cientificismo como realidade distinta do ateísmo, isso porque, o cientificismo, cujo valor coloca a realidade humana como autônoma e independente de qualquer deus ou entidade sobrenatural, não por si mesmas, mas sim na compreensão de que o homem é o ser que conduz o seu destino, torna por um lado a idéia de sobrenatural absurda e por outro, vê com otimismo a autonomia humana em construir o seu mundo e explorar a natureza. (Nietzsche explora muito essa visão).

Segundo as sua próprias colocações: "... o ateísmo tão somente é a opção de um indivíduo que não acredita em deus ou deuses. O ateísmo não é dogmático, não há uma doutrina ateísta, não há um propósito na negação, e também não precisa ser justificada."

É exatamente esse tipo de ateísmo que acho fundamental e importante: o ateísmo como simples opção, todavia, o que percebo é que muitos ateus se agarram ao cientificismo como instrumento de justificação dessa opção, o que acaba por fazer do ateísmo algo dogmático. Compreende? E nesse aspecto, os ateus cientificistas se tornam próximos dos dogmatistas religiosos, que se utilizam de seus livros sagrados e "santos" líderes carismáticos, assim como essa classe de ateus se utiliza do cientificismo e da exaltação aos grandes nomes da investigação científica. É exatamente por isso que possuo uma estreita relação com o agnosticismo e não necessariamente como o ateísmo em si.


O Que vem a ser essa funcionalidade?

A ciência possui em seu âmago, assim como a religião, instrumentos indispensáveis à condução política. Marx enfatiza muito isso em praticamente todo o seu projeto filosófico, enquanto que Nietzsche se preocupa com a idéia de condução política na religião. Sendo assim, a ciência (em suma totalidade, como instrumentalização da lógica e da racionalidade, como história, filosofia, física e etc.) jamais pode contradizer permanentemente o desenvolvimento da sociedade civil (o conceito de contradição no marxismo se estabelece como rompimento com antigos padrões de desenvolvimento para a aquisição de novos paradigmas, em suma, se estabelece então como re-construção), a ciência jamais pode se atrever a querer destruir a sociedade, onde (localização geográfica) participa ativamente na construção (obs: tal postulado seria um ótimo tópico de discussão política, e não necessariamente religiosa), mais ainda, a ciência jamais pode contradizer permanentemente os detentores de poder dessa sociedade, o que é uma minoria elitista. A ciência então se torna também um instrumento de condução das massas pela classe dominante como força de manipulação da consciência coletiva, ou seja, dos padrões sociais normatizados de verdade, beleza, moralidade, identidade, assim como as negações oriundas delas. Se a classe dominante achar por natureza que a religião é um eficiente instrumento de condução, ela será favorável a liberdade religiosa, a democracia é um exemplo disso.
Os processos que conduzem os instrumentos de produção de bens fazem com que a sociedade esteja sempre em processo de re-construção, intermediada por um estado de abandono de antigos paradigmas, por um estado de "destruição", num processo dinâmico que Marx interpretou como história. Em suma, a ciência, como motor responsável pela transformação dos meios de produção, altera os padrões que regulam a vida social e estes alterados, modificam a consciência individual, e este movimento: vida social- consciência individual, sendo intermediados pelos instrumentos e pela força de produção de bens, recebe sua origem na produção científica, na exploração no que há de obscuro no mundo, determinando o andamento da história.

A aplicação do conceito de funcionalidade está precisamente em todo tipo de verificação causal que tem como efeito a construção (mesmo que não seja permanente) da realidade social, cujo fundamento é o homem. É por tanto um conceito essencialmente pragmático e experimental. Todavia, entre os períodos de construção e re-construção da sociedade, períodos estes onde os paradigmas funcionam tão bem a ponto de se tornarem verdades, quando não absolutas, muito próximas disso, sejam elas religiosas ou laicas, existe um período de destruição. Nesse período a idéia de funcionalidade perde um pouco o seu valor, e com isso, tanto as doutrinas religiosas, quanto laicas tendem a se apoiar não mais num cientificismo, isso acontece exatamente por causa da transformação dos meios de produção e com isso, a progressiva aquisição de novos paradigmas. Essa transformação dos paradigmas se estabelece nesse período de "destruição" e somente nele como uma exaltação a subjetividade, onde tanto o cristianismo quanto o ateísmo são paradigmas oriundos de uma adesão existencial. Um exemplo típico que eu posso dar foi a segunda guerra mundial. Nesse período, a humanidade experimentou um grande desenvolvimento tecnológico e científico, que em sua maioria foi a responsável pela morte de milhares de pessoas, e foi exatamente esse paradoxo entre sentido social (desenvolvimento científico e tecnológico) e sentido individual (convicções pessoais, sejam elas a favor ou contra a idéia da existência de uma deidade), que tornou todas as certezas duvidosas, e a idéia de funcionalidade (nesse período) deixou de ser um padrão. O existencialismo ressuscitado durante e depois da segunda guerra é um produto direto disso, e nele tanto o ateísmo (Heidegger e Sartre) quanto o Cristianismo (Kierkegaard e Jaspers), passaram a ser vistos sem dogmatismos, como pura aceitação existencial.

Muitos ateus acreditam demais no progresso. O desenvolvimento científico e tecnológico visa a constante modernização dos instrumentos dos meios de produção, cujos donos são uma pequena minoria dominante e exploradora. Dessa maneira o desenvolvimento científico e tecnológico é um instrumento de dominação e exploração. Isso é progresso? Se há alguma coisa que estimule a barbárie é o desenvolvimento. Por outro lado, o progresso em si, seria o desenvolvimento proporcionado a todos e não apenas a um grupo limitado de pessoas que possam pagar por ele. Sendo assim, há progresso? O progresso é um mito justamente pela confusão entre desenvolvimento (o que é evidente hoje) e acessibilidade ilimitada a esse desenvolvimento (o que na prática, não existe).



“Quem criou Deus?”. Uma pergunta irônica. Na realidade, uma falácia. Essa pergunta é extremamente problemática, pois nos leva a uma redundância. Se para tudo existe um criador, logo, Deus também foi criado. Entretanto, quem criou o criador de Deus? E este criador de Deus, quem criou? Seria uma constante ad infinitum. Essa é a minha posição. Portanto, Deus somente pode ser o criador de absolutamente tudo ou absolutamente nada.

Entretanto, essa é uma questão que possui uma história que nasceu na idade média. Tomaz de Aquino se destacou por tentar provar a existência de Deus a partir desse questionamento. Aristóteles já dizia que tudo o que se move é movido por alguma coisa, dessa forma, ele deduziu que todo o movimento somente pode ser produzido por um ser imóvel. Aqui, Aristóteles estava falando de mecânica e física. Para a Biologia ele aplica o mesmo argumento. Tomaz de Aquino identifica esse motor imóvel a Deus. Para Aquino Deus para criar não pode ter sido criado. (essa é uma posição que já foi abandonada a muito tempo, apenas aceita por uma ala conservadora da igreja católica).

Por fim, existe um terceiro argumento que também compartilho: o teológico. Não podemos definir um criador para Deus porque não existimos antes dele. Como criador de tudo, ele também criou o tempo. Um Deus que existe ante do tempo não pode ter início e nem fim (esse último argumento é apenas lógico, não conceitual).



É comum a muitos ateus lançarem ácidas críticas à história do cristianismo. Primeiro porque questionam a existência real do homem Jesus. Entretanto, devemos considerar que a história, como instrumento objetivo de investigação, não pode expressar qualquer verdade. Não existe uma verdade histórica em si mesma. Até mesmo o próprio Marx irá justificar esse argumento na compreensão de que com a sociedade dividida em classes que estão em conflito, há sempre a história contada pelos que ganham e pelos que perdem.

Lucien Henry foi um escritor marxista do século dezenove. Ele escreveu um livro chamado “As Origens da Religião”. Sua proposta consiste lá para o meio do livro em provar que Jesus foi um mito, resultante da fusão de uma série de religiões de mistério. Ele chega a essa conclusão porque percebe que alguns elementos centrais da fé cristã também fazem parte de outras religiões. Sobre isso acredito não estar falando nenhuma novidade. Entretanto, o ponto mais forte de seu argumento está na comparação com outras culturas de um deus que morre e ressuscita. Sabemos que as culturas de onde se originaram tais religiões utilizavam tal estória como arquétipo, um mito cujo fim expressa apenas passar um conteúdo moral. O cristianismo por sua vez se destaca dessas culturas por fazer do mito um fato histórico: é isso que assusta (no sentido de surpreender) ou fascina as pessoas. É por isso que Henry tenta contesta-lo a todo custo, chegando ao ponto de afirmar que nem mesmo o homem Jesus existiu.

Hoje em dia não há um pensador sensato que concorde com isso. O homem Jesus existiu. Isso é um fato. Outro grande questão se trata das marcas que ele deixou em seu tempo: marcas profundas. Influenciados por essa questão alguns pensadores (como Kierkegaard) o comparam a Sócrates. Jesus foi um revolucionário e um visionário. Outro grande fato. A grande questão se encontra justamente me entender o que ele fez a ponto de ser igualado a Deus. Acredito que seja o seu amor. Já leu “O Anticristo” de Nietzsche? Curioso este livro porque ele basicamente não tem a pretensão de criticar a figura de Jesus de Nazaré que para o filósofo morreu por sua inocência e por ter um coração bom demais.

É ai que a o acontecimento de sua morte e ressurreição entra em cena. Outros messias de sua época também curavam pessoas e expelia demônios, algo comum a um povo miserável, contudo nenhum deles ressuscitou. Outro grande argumento ateísta contra o cristianismo se estabelece na ressurreição como fato histórico. Como entender então o crescimento da primeira comunidade cristã no primeiro século, mesmo diante de intensa perseguição e martírio com o seu líder morto? É obviamente impossível.

Contudo muitos ateus se mostram sensatos quando denunciam o abuso de relações entre o Estado e a religião. E é a partir dessa relação desastrosa que muitos descrentes costumam fundar seus argumentos contra o Deus judaico-cristão, definindo-o como vingativo e sanguinário. Não há deus verdadeiro que se estabeleça a partir de uma intervenção política. Foi o caso de Constantino, com a oficialização do cristianismo e posterior a ele com a institucionalização da fé, cedendo à igreja uma série de benefícios. Ambos sabemos que isso não é uma novidade, e que antes da oficialização feita por Constantino o cristianismo já existia. Nesse aspecto devemos notar algo que para você talvez pareça sutil: o modo como a comunidade cristã vê Jesus como Deus antes de Constantino é bem diferente do modo como a mesma irá vê-lo como Deus depois de Constantino. Tudo por causa da política. Antes, a comunidade cristã era perseguida pelas elites romanas por justamente se recusar a seguir a religião de Estado. Esse “antes” se aproxima bem mais do discurso de Jesus, e a pureza do cristianismo se estabelece ai. Depois, unida ao estado, a igreja de perseguida passou a ser aquela que persegue e mata. Algo bem estranho ao discurso de Jesus. Dessa forma fica subentendido que o cristianismo em sua natureza é estranho ao Estado, logo, que o Deus cristão também o é.