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sábado, 25 de maio de 2013

Para Fazer Doer o Coração

A chuva me condena a lembranças tristes.
De que estou irremediavelmente destinado a viver sem a boa companhia,
de quem, com um sorriso, tornaria os meus dias,
um pouco mais suportáveis. Dias um pouco mais saudáveis.
Talvez eu viva menos por isso.

A tristeza vem antes da chuva, e não passa com ela.
Eu me pergunto constantemente se a vida seria um pouco mais tolerável,
se não houvesse essa tristeza.
Talvez não seria.

Mas como saber, sem ao menos ter a oportunidade de conhecê-la?
De fazer doê-la no coração.
Queria fazer doer o coração,
mas não para escrever poemas tristes.
Que o coração doa por intensidade.

É a vida, e talvez eu esteja destinado a fracassar.
Talvez amar não seja assim tão importante,
mas se for, pequeno e insignificante,
poderei até, amargamente chorar no meu túmulo.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Canibalismo Amoroso




Ele disse que a amava. 

Ela não acreditou. E exigiu, como todas as mulheres, uma prova de amor. 

Ele achou tratar-se de um carro novo, jóias, dinheiro ou viagens pelo mundo. 

Ela queria muito mais do que isso. 

Mais sexo talvez? 

Não. Sangue. O dele. 

- O que?! Enlouqueceu de vez. Não mesmo, sem chance...

Ele não a amava. Era a prova que ela tinha. E insistia nisso. 

Pressionado, ele consente. Faz um pequeno furo no dedo indicado para que ela experimente durante horas seu sangue. Tem gosto metálico e é quente. Com o tempo vicia. Com o tempo ela exige mais com a cara mais angelical do mundo. Inesperadamente lhe arranca um dedo com uma dentada. Ele também, com uma dentada lhe arranca uma parte da orelha esquerda. A noite acaba sendo uma festa, regada a muito sangue, pintando toda a sala de vermelho. Espalhando vísceras. Até que os dois tombam exaustos no chão. E mortos. Ele sem o cérebro, e ela sem o coração.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Destino de Um Escritor Apaixonado


Estava apaixonado.

Contudo, incompreendido, resolve resignar-se em meio a uma infinidade de livros.

Escreve durante horas, ininterruptamente. Pausas momentâneas para lágrimas e choro compulsivo.

Quer esquecer. Ele tenta esquecer. O amor é uma chaga que não sara. Incurável.

Ela resolve amar outro. Como sempre...

Já está acostumado a decepções desse tipo. O impacto não foi tão grande assim.

Mas seu desejo, seu maior desejo, é querer aprender a esquecer. A ignorar completamente o amor. Quer aprender a vencê-lo, a ridicularizá-lo, usando todas as suas forças.

Continua a escrever.

Dúzias de poemas tristes. Confissões de amor interrompidas por acessos de fúria.

Um tiro no coração.

Pronto. Está feito.

Não é amado por ninguém, e isso, agora, não lhe incomoda nem um pouco. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Capítulo Seis de "Absinto"




Recusaram-se a dizimar, e progressivamente o número de fiéis que freqüentavam regularmente a congregação diminuía. Não houve alternativa para a sobrevivência da igreja, que diante de um mundo cada vez mais aberto ás inovações políticas da democracia a favor do aborto, o casamento civil e até religiosos de pessoas do mesmo sexo, se viu obrigada a aumentar o rigor do seu discurso, se recusando a se adequar aos interesses sociais ou a assumi-los completamente. As opiniões divergiam.

É reconhecido o idealismo dos primeiros, dentre os quais eu fazia parte. Porém sem dinheiro, com o tempo não chegariam muito longe. O segundo grupo, porém, era mais pragmático, e portanto, teriam todo o dinheiro e apoio que quisessem. O grande desafio consistia em adequar a mensagem evangélica aos interesses políticos que vingavam, o que inevitavelmente gerava um estranhamento social compreensível, pois afinal, para muito gente o cristianismo era sinônimo de intolerância. Para essas mesmas pessoas isso não consistia uma questão de opinião, mas de verdade. Quando parte da igreja resolveu assumir um discurso mais liberal, ganhou uma multidão de adeptos, porém, muito desconfiados. Tratavam-se mais de curiosos do que homens de fé efetivamente. Uma justificativa espiritual para suas liberdades os livrariam da culpa provocada por uma herança cultural e religiosa mais conservadora.

Era evidente uma reação do outro lado: evocaram a condenação ao inferno para todo aquele que se recusasse a pagar o dízimo. Uma nova forma de indulgência que garantiria a sobrevivência da ortodoxia evangélica, que por outro lado, teria que se contentar agora com a diminuição dos seus luxos. O inferno. A maioria nem mais acreditava mais nisso. Nem mesmo as crianças, ignorando o que afirmava o discurso religioso oficial como ultrapassado, pois não era científico. Pensei: o que seria científico no cristianismo afinal? Pois nessa categoria não poderia se adequar céu e inferno, a imortalidade da alma e até o próprio Deus. Pensei que se o cristianismo ousa reclamar para si algo de científico ele não sobreviveria.  

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Amor é a Porta do Paraíso



Recentemente terminei de ler o livro de Lisa Miller Paraíso: nossa eterna fascinação com a pós-vida (Ed. Nossa Cultura/ 2010) onde a autora procura compreender a evolução histórica da idéia de paraíso nas religiões monoteístas, desde o contexto por onde essas teologias surgiram, até os dias atuais onde essas teologias oferecem apenas o ponto de partida para uma infinidade de insights individuais sobre o que nos espera depois da morte. O livro deixa evidente a preocupação que o homem contemporâneo tem com a sua felicidade. Quase uma obsessão. Não apenas nesta vida, mas, principalmente na próxima. Isso acontece pela constatação de que a busca pela felicidade individual está por si mesma condenada ao fracasso diante de tantos impedimentos, principalmente o da competição entre os homens, onde a felicidade de um, determina a infelicidade do outro. A idéia do paraíso constituiria, portanto, a vida da plenitude do desejo: cristãos vagam por entre ruas de ouro e outras pedras preciosas, mulçumanos têm a disposição dúzias de virgens (embora alguns teólogos do Islã contestem o termo houris, virgem em árabe, como específico a escravas sexuais) e judeus estarão reunidos ao seu povo.

Muito embora os textos sagrados dessas religiões contenham imagens desse tipo, particularmente, não compreendo o paraíso como o lugar da plenitude do desejo individual como uma questão central, dogmática. O paraíso não constitui apenas o lugar da plenitude do desejo, pois nesse caso, insistiriam nossos estudiosos em religião, sua causa seria inteiramente material, idealização de um desejo infantil e reprimido por felicidade. O paraíso também é o lugar do trono de Deus, antes, segundo a tradição judaica, inacessível aos homens. O paraíso constitui o lugar daquele que encontrou em Deus a plenitude do seu desejo. É por isso que o martírio é compreendido como acesso direto ao paraíso: o mártir é aquele que faz de Deus a plenitude do seu desejo.
Outra questão que o livro levanta indiretamente é a memória. Atualmente a crença no paraíso está relacionada ao contato permanente com as pessoas que amamos: pai, mãe, irmãos, a família de uma forma geral. Um tipo de teologia bastante defendida pelos mórmons, onde não apenas os laços de sangue são defendidos como perpétuos, mas também a memória. Teremos memória na eternidade?
A memória constitui a individualidade. A teologia bíblica insiste na perpetuidade dessa individualidade, logo, da memória. Jesus ressuscitou com memória, sabia quem era e quem eram seus discípulos (Cf. Lc. 24.36-51). Os mártires exigem justiça diante do trono de Deus a respeito de tudo o que sofreram e do testemunho que deram (Cf. Ap. 6.9-10). Por outro lado, a perpetuidade da memória colabora (e muito) para a crença na perpetuidade dos laços afetivos, o que o próprio Jesus condenou em seu debate com os saduceus (Cf. Mt. 22. 23-33). Como é possível a perpetuidade da memória sem a perpetuidade dos laços afetivos? Uma questão não tão fácil de ser respondida. O rico no hades, segundo uma das parábolas mais conhecidas de Jesus, sabe quem é, quem são seus irmãos e seu pai. Ele tem voz ativa no texto em seu diálogo com Abraão (Cf. Lc. 16.19-31). Lázaro por outro lado é consolado no seio do patriarca (a TEB traduz o texto colocando Lázaro ao lado e não no seio de Abraão). Lázaro não interage com o rico ou se pronuncia sobre o assunto. Abraão é o mediador da conversa e deixa explícito a impossibilidade de interação entre os dois. Lázaro não tem voz no texto.
A ausência de laços afetivos na eternidade também coloca algumas questões importantes: define o amor como o bem que nasce do constante risco da perda. O amor a Deus e ao próximo, ao amigo e ao inimigo nascem do constante risco que temos em perdê-los eternamente. Daí a urgência em amar. Porque a morte irá extinguir eternamente nossas formas convencionais de nos relacionarmos. Embora limitado, o amor concede aos nossos relacionamentos provisórios sua importância na temporalidade. Sendo assim, acredito que uma parte da nossa individualidade, logo, de nossa memória, particularmente, a mesma envolvida na forma como moldamos culturalmente nossos relacionamentos hoje, se extinguirá para sempre. A mesma que nos separa e nos divide. A mesma que nos faz pensar em nossos desejos individuais. Sendo assim, não posso compreender o paraíso como o lugar da plenitude do desejo individual, mas sim, do desejo coletivo. Onde todos querem a mesma coisa. Onde a “pureza de coração é querer uma só coisa” conforme escreveu Soren Kierkegaard num de seus discursos edificantes. E quem descobriu isso, descobriu o segredo do paraíso. 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Crítica Mortal


 Não se pode perdoar quem ao invés de Cervantes, James Joyce, Kafka, ou até mesmo Shakespeare, resolve desperdiçar seu tempo de vida lendo um livrinho medíocre daqueles. Nem mesmo se tal leitura fosse motivada por uma boa intenção. Uma crítica por exemplo. Uma pessoa assim sequer merece estar viva!

 Estava decidido. Extinguiria a má literatura do mundo. Seu sucesso como crítico literário havia lhe concedido o direito de julgar os bons e os maus. Separar o joio do trigo. Tanto de escritores quanto de leitores. E é por eles que ele resolve começar. Desses que gastam tempo e dinheiro com cultura inútil, o que inclui ficções regadas a sexo hard para senhoras idosas mau amadas, leitores obcecados pela cor cinza, guia de viagem para pessoas que sequer teriam condições para mudar de estado, quanto mais de país!, auto-ajuda para mulheres confusas quanto ao que vestir, guias do moda parisiense para brasileiras ( será que se esqueceram o calor daqui?). 

  Enviou dúzias de cartas a editores exigindo que fosse interrompida a publicação desse tipo de coisa. Cartas onde constavam pelo menos cem títulos que mereciam, com urgência, sair do mercado. Acompanhava uma extensa argumentação sobre a necessidade de rigor quanto ao exame e seleção de todo material recebido pelas editoras. 

 Nenhuma resposta. 

 Insatisfeito, começou a matar. A espreita de todo aquele com um livro ruim nas mãos: nas saídas do metrô, dos trens, ônibus e bancos. O método era sempre o mesmo: uma rápida conversa com a "vítima" a fim de averiguar sua cultura literária, um beco escuro, um corpo deixado no chão. Para chamar um pouco a atenção, assassinava periodicamente grupos específicos de leitores, de um mesmo livro, de um mesmo autor. 


 Numa tarde chuvosa o grande crítico literário apareceu morto num ponto de ônibus. O assassino descoberto também era um crítico, de críticos literários. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Capítulo Quatro de "Absinto"


Não se pode afirmar quem se é sem qualquer lembrança. Sem lembrança é impossível afirmar coisa alguma: linguagem, cultura, história, identidade. Não há vida para os que não recordam. Não há morte. Eles sequer existem. Fechados sobre si mesmos não conhecem sentimentos como o amor e o ódio, a tristeza ou a alegria. São imunes a qualquer estímulo de comunicação. Tudo é silêncio. 

 Não reconheço ninguém. Ando sem rumo, pela estrada deserta, sem ser visto. Parece não haver comida ou água em parte alguma. Não sinto fome ou sede. Estou confuso. Angustiado. Se eu chorar e gritar, não haverá quem me escute. Sou como um naufrago em alto-mar. Era o inferno. Eu deveria saber. Mas onde está o fogo e os gritos das almas angustiadas que suplicam por misericórdia? Onde está o diabo e seus demônios? Pois agora sei o que é o inferno: a solidão absoluta, e por toda a eternidade estar preso aos próprios pensamentos e sentimentos, sem possibilidade alguma de expressá-los. Havia me tornado um fantasma. 

As máquinas não páram, não dormem, produzindo controle. O fim do trabalho é o próprio trabalho, pois num mundo sem morte o ócio é muito maior. Não há fome, pobreza ou riqueza. Não há a mínima desigualdade. Sem a morte não há a necessidade de recursos, seja de medicamentos, roupas ou dinheiro. Sem dinheiro, não há diferença entre os homens.


Reunidos, pareciam evocar a morte numa espécie de culto religioso.

Honravam a morte como um Deus que havia prometido retorno. Mas nada de velas, preces ou mortificações de qualquer espécie. Afinal, tudo isso seria inútil. Estavam ali reunidos para lembrar. Para tentar lembrar. A lembrança nos concede a dimensão da passagem do tempo. É com a lembrança que envelhecemos. E morremos.

Tudo da forma mais discreta possível. Havia a crença de quando algum deles se lembrar de tudo, a morte retornaria ao mundo, trazendo a ordem natural de todas as coisas. E assim, num ciclo interminável, pouca antes de suas memórias se esvaírem, as deixavam registradas em desenhos quase infantis, pré-históricos. Havia uma pequena inscrição na parede, sem autor identificável, e que ao menos, pudesse ser lida pelos presentes:

“Lembre-se que nunca foi o que é agora, e por esforço não será amanhã o que é hoje. Lembre-se que já foi jovem, para que reconheça que hoje você envelhece e tenha saudade da juventude. Lembre-se disso a todo custo. Escreva o que vier a cabeça. Você esquecerá desse compromisso freqüentemente. Leio-o sempre embora você se esqueça disso também.”

Uma coisa era certa: no dia em que alguém se lembrasse, morreria. E mortos não podem transmitir o que sabem. Lembrar e morrer são esforços que se fazem por conta própria.

Boa Notícia!

Um deles lembrou, e morreu. Justamente o que entre eles era reconhecido como um poeta. Das imagens. Ficou lá, estirado no chão, apodrecendo e exalando mau cheiro. Ninguém sabia o que fazer com ele. O que fazer com um defunto. A carne foi dando lugar a exposição dos ossos e de alguns órgãos internos. Descobriram do que somos feito. Mas se esqueceram disso.

Estava feito. Alguma coisa nova iria acontecer. O relógio do universo estava começando a girar seus ponteiros novamente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quinto Capítulo de " Absinto"



Uma lembrança:

Espalhou-se a notícia que assassinatos em série estariam comovendo toda a cristandade: eram todos pregadores famosos, donos de vários programas de TV e rádio no Brasil e no resto do mundo. A princípio, acreditou-se tratar de algum ateu furioso evocando justiça contra o comércio religioso movido ás custas do trabalho duro de pessoas simples, sem instrução, que se deixam levar por promessas de curas milagrosas ou enriquecimento fácil, feitas por líderes carismáticos, porém, maldosos. Depois, com a mesma justificativa, pensou tratar-se de de algum fanático religioso, que de tão radical, decidiu por conta própria, extinguir da igreja esses criminosos, se utilizando até mesmo da violência. Uma inconsistência para muitos cristãos, pois ele não saberia estar cometendo um crime também? Afinal,  o joio anda com o trigo, e a violência é inadmissível nos evangelhos. Mas o caso continuou sem qualquer solução definitiva e a cristandade perplexa. 
Pastores começaram a andar armados, e a contratarem seguranças.Outros, preferiram abdicar do sermão público, limitando-se ás mídias. Mesmo assim não paravam de morrer. Houve protestos: alguns, apoiavam as mortes como um castigo de Deus por conta de grandes pecados, outros, outros a censuravam, como um ataque do diabo, mas a maioria ficava sem uma uma opinião definitiva. Falecidos, eram idolatrados por seus sucessores, nascendo a mitificação entre o povo. 

Os enterros, sempre longos, cheios de pompa e luxo, atraíam multidões. Um deles, num estádio de futebol, o defunto é posto num caixão de mármore e ouro, com um helicóptero derramando pétalas de rosa sobre ele. Um longo discurso é feito pelo novo bispo. Por fim, o caixão, alçado aos céus, ficará na sede mundial da igreja para visitação restrita, mediante uma oferta. 

Sim, era eu quem o substituía. 

A tensão consistia em saber de que eu poderia ser o próximo. De que a qualquer momento a morte chegaria sem qualquer aviso. De que para o povo eu morreria mártir. Mas o que me interessa o que acha o povo, quando o que se está em jogo é uma morte de verdade! A minha.


Estão matando nossos profetas!

Estão exterminando os homens que não dobraram seus joelhos a Baal.

- Cala a boca mulher! Alguém gritou.

O corpo sumiu.

Com a notícia, uma mulher desmaiou.

Alguns diziam se tratar de um milagre, outros porém, de uma brincadeira de muito mau gosto. Outros ainda, afirmaram se tratar de uma conspiração a fim de fazer o canalha do pastor se passar por um homem bom depois de morto, se é que de fato ele esteja morto de verdade ou apenas em fuga para algum lugar desse planeta onde consiga se passar por anônimo. Talvez o Irã ou a Coréia do Norte. Eu queria mesmo manda-lo para o inferno, mas se for para o Afeganistão ou a faixa de gaza já está de bom tamanho.

O fato é que alguém estava pretendendo encenar uma possível ressurreição. E alguns homens bem intencionados do povo começaram a acreditar nisso.

- Isso prova a santidade desse homem! Alguém da multidão gritou.

- Mas onde está o bendito corpo? Outro questionou.

Realmente o corpo sumiu. E ninguém sabia sequer onde começar a procurar, nem mesmo a polícia.



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Corpo Morto


Capítulo I

Uma mesa de necrópse.

Um homem deitado nela.

Era alto, muito branco, aparentando uns trinta anos, de cabelos vermelhos como o ferro  e o corpo coberto de tatuagens.

Essa é a história:

Quando criança, pequeno e franzino, uma das poucas diversões que tinha, consistia em importunar o gato que havia em casa. Inocente, o carregava comigo, tendo minhas duas  mãos presas em seu pescoço, ou então, o puxava pelo rabo, percorrendo a sala junto com outros brinquedos. Quase sempre sozinho.  Não, não se tratava de uma criança perversa, mas sim de alguém que ainda estava aprendendo a descobrir a vida.
Tombei no chão. Ao acordar, observei meu corpo, e parecia que estava dormindo. Eu estava morto. Me desesperei e confuso tentei gritar e chorar com todas as forças, como qualquer criança da minha idade faria, mas não podia. Minha alma havia sido presa no corpo de um gato.

Alguém gritou meu nome, e eu despertei. Estava de volta ao meu corpo, e o gato, bem ao meu lado, era só um cadáver estirado no chão da sala. Consegui chorar e gritar. Minha mãe se aproximou e me abraçou. Nunca mais fui o mesmo. Essa experiência involuntária se tornou freqüente, e com o tempo aprendi a controlar. Certa vez, na escola, troquei de corpo com um colega de classe a fim de colar na prova. Ao retornar ao meu corpo, percebi que ele não acordava. A professora o chamou, alguns alunos também, mas era tarde demais. Como o meu gato, ele também havia morrido. Até então nunca mais tentei realizar tal experiência novamente, até descobrir que poderia tirar melhores vantagens disso.

Agora estou no corpo de uma velha de noventa anos e se eu não voltar ao meu corpo de origem, dentro de pouco tempo eu posso morrer para sempre. O grande problema é justamente o de saber quanto tempo é esse.

Merda!

domingo, 30 de setembro de 2012

O Escritor e Sua Sombra



Navigare necesse, vivere non est necessere (Pompeu – General Romano)
Navegar é preciso,viver não é preciso (Petrarca)

Disseram que era ruim. Que não valia um centavo uma única linha do que escreveu. Que não tinha importância alguma para qualquer pessoa, desse tempo, ou ainda, do futuro. Que não teria um lugar na história. Pelo menos, na boa história.

Obstinado com a idéia fixa de que se tornaria um escritor de renome, senão pela qualidade, o seria pela quantidade. Escreve compulsivamente sobre tudo: desde as nuvens do céu aos homens da terra. Descrevendo, analisando, inventando. Experimentando na métrica, na rima, na melodia de cada frase, no enredo. Nada e suficiente. Precisa trabalhar mais. Deixa de comer para terminar romances. E de dormir também. Com o tempo, começa a definhar. O aspecto esquelético e as profundas olheiras lhe deixam um aspecto medonho, com a cara da morte. Os repentinos bloqueios criativos tornam-se cada vez mais freqüentes, e os acessos de fúria por causa disso também. Não tem amigos. Tem raiva e idealismo.

Agora, ele não é mais um mau escritor. É um escritor sem imagem, e as grandes editoras se recusam a publicá-lo por isso. – Mas escritores não devem ter imagem alguma!  – contestava. Não tem cara de quem escreve, de quem sequer foi adequadamente alfabetizado. É gago, tímido e está ficando velho. Percebe que o tempo está contra ele, lhe pressionando contra a parede. – “Há tantas coisas para se dizer em tão pouco tempo” – Escreve melancolicamente em seu diário.

Obstinado, escreve até mesmo quando não tem vontade, até mesmo sobre a falta de vontade em escrever, pois acredita que talvez apareça alguma coisa boa. Dores de cabeça constantes lhe forçam a procurar um médico. Tem um câncer terminal no cérebro. Começa a escrever um livro autobiográfico sobre a doença e a morte prematura. Não chegou a terminá-lo. Antes de morrer, exigiu a inscrição em seu atestado de óbito: “Causa da Morte: A literatura”[i].  



[i]  Nem só de literatura viverá o homem. Escrever é um prazer desinteressado, de amor. Contudo, qualquer arte, quando reduzida a simples instrumento para fama e dinheiro, pode se tornar letal. E isso não exclui bons literatos. A morte torna a arte indiferente ao artista, fazendo de valores como a fama serem totalmente ilusórios. 

sábado, 14 de julho de 2012

Eu Não Sou Um Escritor



Eu não sou um escritor.  Não sou aquele que dizem que sou. Eu não sei o que sou. Ninguém na verdade sabe. Não sei bem expressar as palavras, ás vezes tortas, ás vezes mortas, ás vezes incompreensíveis, impronunciáveis. Tudo o que posso sentir, sinto e não posso dizer. Talvez eu não tenha uma mensagem. Talvez ainda não saiba qual ela é. Talvez ela sequer exista.

Eu sou um mau escritor. Desses cujos livros poderiam ser definidos como uma luxuosa brochura de papéis velhos. Que poderiam valer alguma coisa justamente à homens que sabem que não valem nada.

Porque insisto nisso? Não sei dizer. Impulso, delírio, vício. Minha morte. E também minha ressurreição. No futuro, toda a minha obra será indiferente a mim mesmo. Escrever é viver de outro modo e em outro lugar. Alguns definiriam isso como divino, outros como demoníaco. É o preço que se paga pela solidão. Tentei, e não posso mudar. Descobri que sou mudo, e o mundo ao redor de mim, é completamente surdo.