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sábado, 25 de maio de 2013

Para Fazer Doer o Coração

A chuva me condena a lembranças tristes.
De que estou irremediavelmente destinado a viver sem a boa companhia,
de quem, com um sorriso, tornaria os meus dias,
um pouco mais suportáveis. Dias um pouco mais saudáveis.
Talvez eu viva menos por isso.

A tristeza vem antes da chuva, e não passa com ela.
Eu me pergunto constantemente se a vida seria um pouco mais tolerável,
se não houvesse essa tristeza.
Talvez não seria.

Mas como saber, sem ao menos ter a oportunidade de conhecê-la?
De fazer doê-la no coração.
Queria fazer doer o coração,
mas não para escrever poemas tristes.
Que o coração doa por intensidade.

É a vida, e talvez eu esteja destinado a fracassar.
Talvez amar não seja assim tão importante,
mas se for, pequeno e insignificante,
poderei até, amargamente chorar no meu túmulo.

domingo, 31 de março de 2013

Considerações Sobre o Amor Cristão


O amor é uma exigência divina, contudo, o tratam como exigência humana.

É preciso partir de uma experiência concreta de que o amor, esse espírito de abnegação e cuidado, nos ofereça uma resposta às misérias humanas.  Nossa primeira experiência nesse sentido se estabelece com o cuidado dos nossos pais e queremos que essa experiência se perpetue em todas as nossas relações. Criamos utopias para o amor e por isso ele se torna irrealizável. Essas utopias são construídas quando estendemos nossas experiências infantis de amparo familiar às nossas relações sociais, tendo a expectativa de amparo e cuidado, o que inclui, até, certa disciplina. É inegável certa frustração a essas expectativas.
O amor é uma exigência divina.

Sem meias palavras, sou um cristão e creio em Deus. Contudo, caso de fato ele não exista (e estou sendo meramente especulativo nisso) acredito que Deus represente uma contestação a autonomia de um homem completamente falido. Deus é o indicador de que o homem é um projeto falido, daí as intervenções na natureza, os milagres, a encarnação e ressurreição, conforme destacam a literatura bíblica. Se há um Deus que interfere (teísmo) há um homem que é incapaz de agir por conta própria. Mas para a linguagem científica, não há Deus algum que interfira em alguma coisa: o homem continua livre no espaço.

Para alguns Deus não existe por pura impossibilidade. Essa afirmação torna-se necessária para que o homem utópico que queremos tornar-se possível. O amor é uma exigência divina, e isto significa, mesmo que Deus não exista, que o homem é incapaz de amar. Que o homem é um projeto falido no amor.

Mais ainda: que o amor é impossível ao homem. Que o amor não existe por impossibilidade à natureza humana, que é uma utopia, uma invenção, que pode ser desconstruída historicamente e usado como instrumento de poder por séculos. Para alguns, Deus, que é impossível, se insere nessa categoria. Deus e o amor, impossíveis? Só podem estar num outro mundo, este também impossível.

Se é Deus que exige o amor, e Deus é impossível, o amor torna-se impossível, e da mesma forma, torna-se uma exigência que o homem fracasse amando. Se é o homem que exige o amor, o amor nada implica de divino e impossível. Ele é humano e possível e o homem deixa de ser um fracasso total e afirma sua autonomia. Acredito ser essa uma utopia equivalente a concepção de muitos céticos de que Deus não existe. Podemos apelar e evocar a imagem de indivíduos abnegados como Gandhi, Luther King e Madre Tereza. Todos eles amaram o que convinham amar: os indianos, os negros, os pobres. Isso é algo completamente possível e humano. A luta pelos mais necessitados pode até conceder direitos, mas a concessão de direitos nunca é uma prova de amor. Como se costuma dizer, o amor é uma condição universal, e isso, para muita gente não existe. Porque não existe? Porque o amor universal é um conceito cristão, e o Deus cristão, que ama o mundo inteiro, para a mentalidade contemporânea, simplesmente é impossível.

Contudo, se Deus criou o homem, e o homem é um projeto falido, Deus criou um projeto falido? Um questionamento apelativo. O amor é impossível, tanto para teístas, quando para céticos, cada um ao seu modo. Um, pela ausência de Deus, outro, por causa dele. A confiança que se tem na autonomia confere em mim uma desconfiança, da mesma forma como muitos céticos desconfiam da religião e da crença em Deus. Não, não acredito que o homem pode tudo, de alguma maneira ele sempre se sentirá fraco e impotente, apelando para a religião ou se negando a ela. Negar isso é viver numa mentira! Claro, religiões também conferem suas mentiras, e podem usá-las para explorar e corromper qualquer um. A conclusão é simples: não se pode afirmar que a vida sem religião e alguma fé é melhor que uma vida onde esses elementos estão presentes delas. Não se pode comparar essas realidades como qualitativas. Por outro lado, o abuso de poder, o autoritarismo próprio das instituições, religiosas ou não, não naturalmente passíveis de contestação. Com Deus ou sem ele. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apócrifo l


Não. Eu não acredito na bondade humana. 

O desejo por poder, status, qualquer e mínima forma de reconhecimento, ás vezes por nada, atestam o que afirmo. Gestos de bondade, que não sejam anônimos, são por mim desconfiados.

Não. Eu não acredito na bondade humana. 

O prazer ao dinheiro. De ter tudo o que vier aos olhos é compartilhado por todos os homens. Ganância. 

A raça humana faliu!

E nisto incluo, homens e mulheres, heteros e homo, letrados e ignorantes, religiosos e ateus. Defender qualquer tipo de superioridade entre gêneros (homens superiores a mulheres e mulheres a homens, heteros superiores a homos, e homo a heteros, religiosos superiores a ateus e ateus a religiosos) é no mínimo defender algum tipo de elitismo que ultrapassa a condição normativa: é uma mentira evidente!

Não tenho uma solução para isso. Nenhum ser humano tem. Acredito no Cristianismo por me exigir (de uma forma auto-imposta) a acreditar em algo que não acredito. Que a humanidade tem esperança. O que desejo profundamente, ás vezes mais, ás vezes menos, é a solidão. As pessoas estão se tornando progressivamente mais dogmáticas. Quero ficar longe delas. Quero ficar longe disso. Ás vezes mais, ás vezes menos. Sei que isso não é possível. Por ora, tento conviver com isso, até o mínimo possível.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Jesus Lava os Pés dos Discípulos



† Leitura devocional: Jo. 13.1-20

Ele sabia.

 De onde veio e para que veio.

Sabia que nada escaparia das suas mãos. Nem mesmo o poder da morte. Sabia também, que para isso acontecer, sangraria. Seria escarnecido, humilhado, açoitado e cuspido, ridicularizado publicamente. Esquecido por seus amigos.

Ele sabia.

E mesmo assim, em sua última refeição, não deixou de ser quem era, o mais humilde dos homens. Ele se ajoelha, e lava os pés dos seus discípulos. Os mesmos que diante da cruz o esqueceriam.

Mas do que humildade, o que havia entre Jesus e seus discípulos não se tratava de uma simples relação de poder, mas de amor. O poder mede, controla, nivela, separa pessoas, as classifica, as define. O amor não, pois o amor é o avesso do poder, pois não exige nada em troca do que faz. Ele amou, e não esperava ser amado em troca. Mas sabemos que além de Jesus ninguém mais é assim. O que nos surpreende, pois qualquer instituição ou pessoa que se defina como herdeira do seu legado, se compromete mais com o seu amor do que com o poder. E todo aquele que se compromete com o poder, se compromete não com Jesus Cristo, mas com aquele que possui em suas mãos todos os reinos da terra.   

sábado, 19 de janeiro de 2013

Abraão, Um Pagão?



“... quando o áugere cumpre a sua tarefa e declara que o deus reclama o sacrifício de uma jovem, o pai deve então, heroicamente, efetuar tal sacrifício. Ocultará com nobreza a sua dor, apesar do desejo de ser o homem insignificante que ousa chorar, e não o rei obrigado a agir como tal. E se, na sua solidão, o coração se lhe enche de dor, não tendo entre o seu povo senão três confidentes, em breve todos os súditos conhecerão o seu infortúnio e a nobre ação de consentir, no interesse geral, o sacrifício de sua virgem e amada filha (...). A diferença que separa o herói trágico de Abraão salta aos olhos. O primeiro continua ainda na esfera moral (...). Muito diferente é o caso de Abraão. Por meio do seu ato ultrapassou todo estádio moral (...). Não age para salvar um povo, nem para defender a idéia de Estado, nem sequer para apaziguar os deuses irritados. Se pudéssemos evocar a ira da divindade, essa cólera teria unicamente por objeto Abraão. Assim, enquanto o herói é grande pela sua virtude moral, Abraão é-o por uma virtude estritamente pessoal.  (Soren Kierkegaard em “Temor e Tremor”).


É difícil deixar-se convencer por Abraão, pois os deuses de outros povos, cada um à sua maneira, exigiam jovens em sacrifícios. Sendo assim, torna-se difícil distingui-lo de um pagão, de um adorador de ídolos, de uma ficção. Em que difere Abraão de um simples camponês grego que igualmente entrega sua única filha para ser sacrificada aos deuses? Os deuses exigem virgens, e em troca, garantem a proteção da cidade contra os desastres naturais e guerras. Garantem boas colheitas e rebanhos cada vez maiores. O pai, ao entregar sua única filha ao sacerdote, embora a ame com todas as suas forças, com o seu coração partido, prefere desistir dela pois sabe para que ela está sendo sacrificada. As colheitas e os rebanhos, assim como a paz entre os vizinhos precisam continuar. Seu gesto de desapego será visto como heroísmo e será recompensado por isso. Ele receberá homenagens e serão escritas dúzias de canções e livros sobre seu feito. Mas ele ama sua filha, e por isso prefere suportar em silêncio, até o fim de seus dias a dor em perdê-la. Mas ele sabe porque a perdeu e os efeitos disso.

Abraão não sabe de coisa alguma. Deus lhe exige de volta o que lhe deu. Seu ato não defenderá o bem de quem seja, nem mesmo o seu próprio bem. Sendo assim, nada pode justificá-lo. Ele não será honrado ou terá seu nome louvado entre o povo. Terá de suportar em silêncio sua dor. Não, Abraão não se iguala aos homens de seu tempo. Foi-lhe exigido superá-los. Mas não sem dor, sem angústia, sem solidão. Seu ato de fé o tornava um homem singular, como nenhum outro, em toda a história. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Preço da Liberdade


Eis o Preço da Liberdade, 
Da escuridão da alma, 
dos poucos amigos.
De encontrar-se no mundo profundamente só. 

Eis o preço da liberdade, 
Sem glória alguma, 
sem qualquer tipo de honra ou nome.
Ausente dos nomes que estampam os livros de história. 

Esquecido no túmulo.
Jamais lembrado.
Para sempre adormecido.
Mas afinal, qual seria a importância disso?

Eis o preço da liberdade,
e esse preço consiste em morrer,
como se não tivesse nascido.
Viver como se jamais morresse.
E não ser, para quem quer que seja, coisa alguma que mereça importância

domingo, 6 de janeiro de 2013

Moriah


Sabemos bem até onde pode ir a natureza humana: homens maus podem matar e para eles não há a mínima diferença de quem seja a vítima, contanto que isso os agrade, os permita algum prazer, mesmo que entre essas vítimas esteja o próprio filho. Homens bons também podem matar, desses que não ousariam agredir um inseto ou sequer alterar o tom de voz contra alguém. Basta-lhes um acesso descontrolado de fúria e são capazes de sacudir o mundo. Contudo, quando a tempestade passa, a ira cede lugar ao remorso e talvez não há mais nada a fazer. Não há o que concertar. Atos assim podem envolver a morte de quem se ama. Embora o amasse, ele levou seu filho à Moriah, e em silêncio seguia o seu caminho. Mas como dizer ao seu único filho que Deus o exigia em sacrifício? Como dizer ao filho, quem embora seria ele, seu pai, o seu carrasco, o amava? Como obedecer a Deus e imolar o filho seria o mais correto a se fazer do que preservá-lo com vida? Isso não coloca o patriarca na tão famosa lista de homens virtuosos que merecem ser imitados. Isso não coloca o patriarca entre os santos e piedosos, mas entre os loucos e delinqüentes. Enquanto prossegue até Moriah nada pode justificá-lo, pois até mesmo Deus está emudecido e não ousa falar até que ele, com a faca em punho, a erga aos céus. Que espécie de homem é Abraão? Bom ou mau? Impossível defini-lo até que tenha realizado seu ato. Mas ele não realiza! No caminho até Moriah Abraão está moralmente suspenso. E nesse caminho, todos nós estamos com ele. A vida constitui o caminho até Moriah. E se tudo afinal não passar de uma prova? E se no fim de tudo, um anjo nos impeça de entregarmos a Deus o que mais amamos? Mas e se ele não impedir? Enquanto isso, prosseguimos até Moriah. 

Ecce Homo



Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: "Abraão! " Ele respondeu: "Eis-me aqui".

Então disse Deus: "Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei". 
Gênesis 22:1-2


Diferente dos gregos, Abraão não é um filósofo. Não aprendeu lógica ou retórica. Diferente dos homens do nosso tempo, ele não é um homem de ciência. Não estudou física, matemática e não teve qualquer noção de biologia ou química. Longe do passado, cujo domínio era exercido pela filosofia, o pensamento sistemático, bem planejado e ordenado, assim como também, longe do futuro, cujo domínio exercido pelas ciências e seu método rigoroso de reprodução em laboratório das leis da natureza, Abraão consiste num tipo de homem singular: sem passado ou futuro, o presente é o seu tempo. O presente é o tempo que não o situa em tempo algum. Ele está na eternidade, e é pela eternidade que ele será engrandecido. Kierkegaard se propõe a dissertar sobre quem Abraão é, está tão longe do discurso filosófico e do método científico, que para uma e outra, no mínimo ele seria objeto de riso, a não ser por um fato: ele leva o seu único filho ao monte Moriah para sacrificá-lo ao seu Deus. Nesse momento, seja entre filósofos e cientistas, ou até mesmo, entre os bondosos pais de família que amam seus filhos e desejam a eles o melhor que o mundo os pode conceder, Abraão não pode ser visto com bons olhos: trata-se de um homem sem coração que prevê no futuro possíveis rivalidades ou que no mínimo enlouqueceu. E disso se trata todo a drama de sua história. A história de um homem que guarda um segredo e cujo ato não pode justificar, e que será engrandecido como pai de uma nação, para sempre, depois desse ato, pois afinal, ele não sabia que tudo não passava de uma prova. Imagine o impacto que seria, a ousadia de alguém que arriscaria viver como ele?!

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

" Coração de Pedra" de João Alexandre




Deus abandonou seus templos, despediu seus sacerdotes, deixou no altar os sacrifícios. Sim, ele se foi, mas não sem deixar aviso: estaria em outra casa, que ele mesmo criou com suas mãos. E diante desse sumiço, muito acreditaram até que ele havia ficado doente e até morrido. Não sabiam mais reconhecê-lo longe de toda pompa, e cerimonialismo. Mas não, confortavelmente estaria escondido, no coração das párias, dos loucos, do que como ele, esquecidos. 

O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; 
Atos 17:24

domingo, 23 de dezembro de 2012

O Natal é o Seu Avesso




Penso o natal como a manifestação do salvador do mundo na história e na manjedoura. Sim, na manjedoura! Num estábulo sujo e desconfortável. Sem as mínimas condições para um parto decente. Sim, penso que nessas condições, pela ordem natural das coisas, o natalício de Jesus poderia não ter acontecido. Que talvez Jesus não tivesse nascido. Que no máximo, a criança poderia ter chegado a poucos dias de vida. Mas nascendo mostrou-se já vencedor da morte! 

Mas há algo de mais surpreendente no natal: as crianças que hoje nascem nas mesmas condições, ou até piores. Esse é o natal: a lembrança que a história não é feita pelos que nascem em berços de ouro, mas na sarjeta. Sendo assim, não compreendo o natal como uma festa, o que para muitos seria o óbvio, mas um compromisso com a vida. Sabemos bem que o natal não é uma festa ao consumo próprio, mas justamente ao seu oposto, é uma festa á doação. Que o natal consiste justamente no seu avesso.  A maioria não progride nessa relação. Não doa. Não se doa.  

Mas há algo mais: lembrar-se de quem sofre não deve contentar-se a uma simples homenagem. É preciso ir em direção a eles. Como os reis magos que depositam a seus pés suas riquezas. E passando por esse teste, é impossível que eu não tenha vergonha de mim mesmo. Que eu compreenda que deixo a desejar, e muito. Sim, porque ainda não aprendi a ser um homem de benevolência, embora não me faltem exemplos.

Não sei em que você acredita: se em Deus ou no diabo. Se em anjos ou seres do espaço. Ou até mesmo se não acredita em nada disso. Se acredita na política, na revolução proletária, ou simplesmente deixa vida passar sem qualquer ideal. Ame e tudo estará resolvido. E isto significa: olhe menos para você e se importe com aquele que precisa da sua ajuda. Não espere nada em troca. Não cobre nada em troca. A vida é injusta porque as pessoas cobram de mais umas às outras.

Feliz Natal a todos!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Deserto


Porque alguns homens insistem em viver nos desertos? 


É evidente uma distância entre eles e os homens comuns. Uma distância perigosa, onde a solidão, a vida austera e o discurso ácido contra os males da civilização substituem a confortável vida em comunidade, a submissão em troca da própria vida (onde o capital se torna uma autoridade que exige obediência) e a ausência de senso crítico. Homens assim jamais serão ouvidos. Sua razão não é adequada ao discurso que predomina e que exige total obediência. Assim é a vida da maioria dos homens. É angustiante a constatação de que embora “povo do livro”, os cristãos são, em sua maioria, paradoxalmente, despreocupados com qualquer tipo de formação intelectual. Justificam a autoridade religiosa a fim de se livrarem do compromisso com o ensino. Lêem pouco, estudam pouco, não se tratando, porém, de uma simples falta de oportunidade. Despreocupados, fazem do pastor (ou padre) alguém que estuda o cristianismo por eles, alguém que é cristão por eles. 



Porque alguns homens insistem em viver nos desertos?



Porque nos desertos não podemos fugir de sermos nós mesmos. De assumirmos riscos e responsabilidades, de sermos livres e por isso inadequados ao mundo. De pagar com sangue por essa liberdade. De prepararmos o caminho do Senhor que é de liberdade. Quando cristãos entenderem que espiritualidade não se trata de uma simples questão de obediência, mas de responsabilidade para assumir riscos, começarão a entender o que é ser um cristão.

O Filho Pródigo






Talvez você considere a parábola do filho pródigo apenas um texto bonito para ser pregado a não crentes ou crentes decepcionados com a igreja num domingo à noite. Não é este o caso. Deus ama seus filhos onde quer que estejam: perto ou longe. Este texto é para ambas as pessoas. À todos os crentes que, independente das circunstâncias se encontraram desencorajados e desestimulados, tristes e aborrecidos, incompreendidos ou simplesmente  se sentem ignorados. Há de se considerar que muita gente assim, com toda a persistência, freqüentam nossas igrejas. Por outro lado, seria um erro grosseiro comparar uma denominação qualquer com a casa do pai, descrita na parábola. Contudo, podemos tornar nossa vida em comunidade integrante dessa casa. Nesse esforço surge a igreja: a comunidade que reproduz à sociedade o amor de Jesus Cristo, que não distingue bom de mal, justo de injusto, que é gratuito. 


A Juventude é Uma Aventura Perigosa. Ele tem tudo em suas mãos, mas seu coração não está satisfeito. Os bens de seu pai são maiores do que a presença de quem lhe amou por toda a vida. É jovem, e por isso, tem no coração o desejo por aventura e perigo. Deseja enfrentar o mundo lá fora com as próprias forças, confiante que irá vencê-lo. Abandona a segurança do lar. Decidiu partir. Indo para longe de quem, por toda vida o sustentou e cuidou. De quem lhe ensinou sobre os perigos que o mundo reserva a jovens simples. Mas sua curiosidade lhe impulsiona à fascinante beleza do desconhecido. Decide partir, e mesmo com toda a angústia da separação, seu pai não se recusa a lhe negar coisa alguma. Oferece tudo. Junto com o filho rebelde e aventureiro, vai-se embora na caminhada parte do coração de seu pai. Como nos mitos gregos, deseja enfrentar seu destino. Seu bondoso pai não estará lá fora para socorrê-lo, mas não deixará a porta de casa até ver seu filho retornar ao lar novamente. Diferente dos gregos, que não eram filhos dos deuses, não podemos deixar de sermos filhos de Deus. Não podemos fugir de nosso lugar de origem. É inevitável que ele retorne para o lar. É inevitável que ele aprenda que no mundo lá fora não há lugar para ele. Lá fora ele não é filho de ninguém e por isso, não haverá piedade para ele. Aprenderá que longe de casa não se pode ir a lugar algum. Ele retornará, mas não como a mesma pessoa de antes.


Voltar ao lar. Tornar a trazer alegria ao coração de um pai que espera. A alegria do reencontro, que evoca a lembrança de quando viu seu filho pela primeira vez, ainda pequenino e indefeso, chorar em seus braços. Novamente para os seus braços ele retorna. 


Essa é a sua história, mas também de outros tantos que como ele se convenceram de que poderiam encontrar algo melhor do que a casa do pai que se dedicou e ofereceu tudo a ele. A história de cada um de nós. A história de nossa viagem rumo ao desconhecido e de nosso retorno para a casa. O mundo é um grande deserto, onde os poucos oásis estão lotados de pessoas que competem entre si (e até matam por isso) por um pouco de água, comida e descanso. Por isso, não espere sobreviver por muito tempo lá fora. No deserto você não é filho, não está indo para lugar nenhum e não tem muito tempo de vida, aliás, não tem muito tempo para descobrir essas coisas. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ressurreição

A você, que como eu, se sente decepcionado com os rumos tomados pelo cristianismo institucional. Que descobriu, que em nome de Cristo, aboliram o cristianismo, e colocaram no lugar uma caricatura, uma pintura, feita apenas para admiração poética ou até mesmo lógica, mas que mantêm a devida distância com o que se passa com as pessoas. Que fizeram do amor ao próximo uma utopia e o substituiram pelo amor ao dinheiro, ao status, fama, poder e hierarquia, quando em Cristo somos feitos irmãos e uma só família. Que descobriu que fizeram da santidade o sacrifício de almas extremamente dedicadas, e que diariamente vivem atormentadas quanto a sua salvação pessoal e ao seu destino eterno. Que fizeram da liderança a sacralização da vassalagem e do dízimo, a preocupação absoluta com os luxos do templo e das excentricidades de líderes religiosos do que a anônima assistência aos pobres.

A você que julgando não ter mais forças para continuar a acreditar em algo assim e que por isso resolveu abandonar tudo. Por julgar que definitivamente tudo está perdido, que o Cristo dos evangelhos tão poético e vivo, morto está em palavras e pedrificado no passado através desses textos que ninguém mais ousa sequer aproximar o ouvido. Que ao morrer, Jesus fora enterrado numa infinidade de dogmas, conceitos e teologias. A você que acredita que esse Cristo de que falam eloquentes pregadores está morto e ainda não viveu na vida das pessoas.

Tomé.

"Sejas Crente e não incrédulo".

Não é o que você vê que deve lhe dizer no que crer. Não é o templo, os dízimos, as teologias. Não é o moralismo dos puristas ou as hierarquias. Nada disso é Jesus Cristo. Sequer isso o representa, pois tudo isso está morto e condenado a não viver. Condená-los não só é racional, como evidente e não há como ser otimista quanto a isso.

" Bem aventurados os que não viram, mas creram".

Creia no que você quer ver. Alimente todas as suas esperanças no futuro, que para Jesus é a ressurreição. A ressurreição de Jesus o separa eternamente de tudo o que está morto, que leva o seu nome ou não. A ressurreição de Jesus é o futuro da ressurreição da criação que está em andamento, alterando as estruturas de poder até a extinção. Isso inclui igrejas, templos, religiões, deuses. Isso inclui seres humanos transformados, novos.

sábado, 3 de novembro de 2012

César e Cristo


* Leituras de Lc. 20.25 e Lc. 23.2.

Jesus, o messias.

Para um judeu religioso isso não constituiria ofensa alguma, a não ser quando esse messias, ao invés de optar pela violência, a fim de impor seu poder, escolhesse seguir justamente o caminho oposto. Um messias pacífico, diante das circunstâncias impostas, não consistia num crime romano, mas judaico, contudo, contra isso, legalmente judeu algum poderia fazer qualquer coisa. A apelação ao direito romano era inútil, pois não existia na alegação de messias um crime em si. O camponês judeu não poderia comparar-se a César. Deixou claro que era o messias e que era rei, mas não desse mundo, não da forma como as coisas estão. Pilatos não poderia condená-lo por isso. 

A acusação estabeleceu numa única fórmula um crime político e outro religioso, satisfazendo assim ambos os lados: um messias que proíbe o tributo a César. Para um judeu devoto toda a nação pertence a Deus, ou seja, César fica com absolutamente nada. Seu poder é ilegítimo, não apenas sobre os judeus, mas também sobre os próprios romanos. Foi isso que os judeus entenderam da clássoca máxima de Jesus: " Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Era isso que muito provavelmente Jesus ensinou de fato. Que diante de Deus todo poder é ilegítimo, tanto que saberia que morreria por isso. 

Nada pertence a César, tudo pertence a Deus. As consequências são assustadoramente poderosas: Deus não é uma entidade abstrata, distante dos homens, ele governa, e diferente dos monarcas ,presidentes e ditadores, ele é próximo e íntimo. Seu governo não é teocrático. Segundo Jesus, é patriarcal. 

sábado, 27 de outubro de 2012

O Publicano


Lucas 18. 9-14.

“Tem misericórdia de mim pecador!”

E, contudo, voltará o publicano à sua habitual rotina de cobrador de impostos do império romano. Ele não é amado por isso. Não têm seu nome entre os grandes, mas sim entre os traidores. Ele mesmo se vê como um traidor: de seu povo e principalmente, de seu Deus. Por isso, não tem coragem de erguer os olhos aos céus. 

“Digo-vos que este desceu ju
stificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado; mas o que a si mesmo se humilhar será exaltado” (v.14).

Sim, no reino de Deus há perdão aos traidores e para todo aquele que abandonou o caminho, pois retornará para ele. E são eles, que pelo ódio alheio não acreditam em si mesmos como justos, santos e bons. Sequer em mudança. Sim, há perdão para ele, que mesmo incerto, deixa o templo e segue o seu caminho sem saber que está justificado.

sábado, 14 de julho de 2012

Eu Não Sou Um Escritor



Eu não sou um escritor.  Não sou aquele que dizem que sou. Eu não sei o que sou. Ninguém na verdade sabe. Não sei bem expressar as palavras, ás vezes tortas, ás vezes mortas, ás vezes incompreensíveis, impronunciáveis. Tudo o que posso sentir, sinto e não posso dizer. Talvez eu não tenha uma mensagem. Talvez ainda não saiba qual ela é. Talvez ela sequer exista.

Eu sou um mau escritor. Desses cujos livros poderiam ser definidos como uma luxuosa brochura de papéis velhos. Que poderiam valer alguma coisa justamente à homens que sabem que não valem nada.

Porque insisto nisso? Não sei dizer. Impulso, delírio, vício. Minha morte. E também minha ressurreição. No futuro, toda a minha obra será indiferente a mim mesmo. Escrever é viver de outro modo e em outro lugar. Alguns definiriam isso como divino, outros como demoníaco. É o preço que se paga pela solidão. Tentei, e não posso mudar. Descobri que sou mudo, e o mundo ao redor de mim, é completamente surdo.

domingo, 6 de maio de 2012

Carta à Minha Mãe



Mãe,
Os cabelos longos e brancos, as rugas da face tornam-se mais profundas e evidentes. O tempo está correndo para nós dois, e o que eu estou fazendo com isso? Preciso valorizar mais o que um dia está prescrito que acabe. Não quero alimentar saudades do que poderia ter feito e não fiz.
Infelizmente não é possível viver mais de uma vez. A vida é preciosa e só agora tenho ganhado consciência disso como nunca antes. Seu menino cresceu. Imagens da minha infância me vêem à memória e com elas a pergunta: “Meu Deus, porque isso teve que acabar?” Envelhecemos, mas não é por conta disso que deixei de ser seu menino. Envelhecemos, e minha dívida com a senhora é impagável. Como alguém é capaz de dedicar a única oportunidade de vida que tem para sustentar e educar à todo custo cinco meninos? Para dar tudo o que é possível a eles, alimentando-os, se possível fosse até com o próprio sangue? Sinto que esse gesto incondicional de doação conduz a minha vida a um propósito.
A senhora é a responsável por tudo o que há de melhor em mim. Até mesmo a teimosia, característica de nossa família, criou em mim o espírito de persistência que me fez escrever e publicar até agora cinco livros. A senhora me ensinou a assumir minhas responsabilidades, a brigar por meus ideais, a impor limites a mim e aos outros. A senhora me ensinou a ter ética. A senhora fez de mim o homem que sou hoje, embora até hoje me vejo na obrigação de continuar a aprender.


Pai,
Não consigo deixar de olhar no senhor um pouco de mim mesmo daqui a alguns anos. Independente de qualquer coisa, sinto muito orgulho de ser seu filho: o senhor me ensinou a ser exigente em tudo o que faz e a compreender o trabalho como uma virtude. Trabalhou muito para sustentar todos os seus filhos. Uma coisa é possibilitar que crianças nasçam, outra, que crianças continuem vivas no mundo. Agradeço toda a sua dedicação por mim e por meus irmãos. Não tenho dúvidas de que muito em breve muita coisa irá mudar na minha vida, para melhor! Quero que participem disso. Quero agradecer a Deus pela vida de vocês e que ele me permita honrá-los como merecem.

Seu filho primogênito,
Diogo Santana.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

"Jesus te Ama?"


“amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” (Jo 15, 12).
“Jesus te ama”
Será?
Talvez este seja o tipo de propaganda que o salvador do mundo se recusaria a ter. Nela, ele é implicitamente responsabilizado por todo o amor do mundo, e do mesmo modo, culpado por todas as manifestações humanas de desafeto e ódio.  Com esse discurso metafísico sobre o amor, nós cristãos, tornamos as pessoas mais descrentes nesse amor, mais descrentes em Jesus. A grande tarefa do evangelho consiste em nos tornar responsáveis para amar. E onde há amor, há o exemplo de Cristo. Há o próprio Deus que é amor.  “Eu te amo”. Isso basta pra mim, e creio que para o próprio Cristo também.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Mulher Adúltera


Jo. 8.1-11.

 Deixar-se vencer pelo amor, não resistir a ele. Não o amor transitório de paixões, fundado em benefício próprio e satisfação pessoal, fruto secreto de uma profunda carência emotiva que impulsiona desesperadamente a lançar-se diante de braços estranhos, indiferentes, mas sim, o amor que vai ao encontro do outro, lhe reconhece, lhe identifica diante de Deus, amor que identifica criador e criatura. Que promove um encontro. E assim foi entre Jesus e uma mulher apanhada em adultério.

 Tal relato se encontra precisamente entre dois grandes discursos de Jesus: um sobre sua pessoa (Jo. 7.10-53) e outro sobre sua missão (Jo. 8.12- 59). Jesus participa da festa dos tabernáculos, uma festa cerimonial judaica de uma semana cujo fim era lembrar ao povo o tempo em que seus ancestrais ainda viviam em tendas quando peregrinavam no deserto depois do êxodo. Nessa festa Jesus discursa sobre sua identidade. Contudo, inserido neste discurso estão severas críticas ao modo de administração da lei feita pelos sacerdotes, assim como, o modo como interpretam a lei e os procedimentos utilizados sobre ela para exercerem qualquer tipo de julgamento, dentre eles, sobre quem era Jesus. Isso é interpretado pelos escribas e fariseus como um tipo de provocação, procurando por isso a todo custo, matá-lo.

 Terminada a festa Jesus resolve passar a noite no monte das oliveiras em oração. Antes do nascer do sol se dirige ao templo e começa a ensinar. É exatamente nesse momento de cansaço físico e mental que os principais da sinagoga lhe resolvem testar – uma clara resposta ao discurso de Jesus feito um dia antes. Baseados nas afirmações de Jesus sobre como interpretam a lei, trazem em sua presença uma mulher apanhada em adultério. Alheia a tais embates entre Jesus e os principais da Sinagoga, ela é simplesmente usada como um meio para condenar Jesus à morte. Morrendo Jesus ela também morreria. Entretanto, conseguindo livrar-se da armadilha, a mulher também seria preservada com vida. Ironicamente a vida dela estava nas mãos de Jesus, não dos seus algozes. Nesses momentos de tensão, onde Deus, incompreendido, parece ser um tirano cruel, onde não conseguimos enxergar tão longe a fim de compreender seus desígnos, Isaías nos ensina que quando nossa cegueira espiritual (que pode ou não ser oriunda de um pecado) nos impede de enxergar o mesmo que Deus, devemos apenas estender as mãos e deixar-nos guiar por ele (Is.45. 1-5).

E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato adulterando, e na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu pois que dizes?. Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar ... (vv.5-6).  

 Por um momento Jesus se calou. Escrevia na terra. Depois de uma pausa, Cristo responde a provocação com a já clássica afirmação:

 ... Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela (v.7).

 Todos são iguais à mulher adúltera. Condená-la seria reconhecer em si mesmo a necessidade de punição, e por isso mesmo, de morte. Todos se retiram, maculados pelos seus próprios pecados e consciências, e por isso, continuam pecadores, condenados pela justiça de Deus, mortos. Estão conformados com as suas vidas. Só a mulher permanece com Jesus. E por isso ela é perdoada. Um pecador quando diante de Cristo possui apenas a escolha de renunciar a Cristo ou os seus pecados. Por isso a recomendação de Jesus à mulher: Vai-te, e não peques mais (v.11).

Como julgar uma pessoa livre? Nem mesmo Cristo Julga. Martin Heidegger certa vez escreveu que apenas nos definimos quando morremos. É por essa razão que o julgamento de Jesus é escatológico, onde separará bodes de ovelhas. Para o Judaísmo do primeiro século a lei definia moralmente os indivíduos em bons ou maus, em santos e pecadores, em salvos e condenados. Com a corrupção da lei feita pelos sacerdotes, a lei somente poderia ter uma aplicação válida quando administrada pelo seu próprio autor: Cristo julga! E perdoa. Renuncia a lei? Apenas ensina a sua função: humanizar o homem, isto é, coloca-lo diante de seu criador.