O amor é mais forte do
que a morte, tanto que chega a zombar dela, assim como de uma infinidade de
sistemas políticos de promoção a essa morte. Mas não sem certa dose de melancolia.
Esse talvez seja o que há de mais intenso em Roberto Benini em seu filme “A Vida é Bela”. Tudo é muito
expressivo: um homem sem valor, encontra o valor que tem com a mulher que ama.
Com o tempo, cultivam um lar e um filho pequeno. Época da guerra e ele e o
menino são judeus. Vão parar no campos de concentração. Ela separada dos dois,
exige ir para o campo também, embora não fosse judia. O final é emocionante.
Devaneios literários de um teólogo sobre o ritmo das Metrópoles; seu mundo e sua gente. E é claro, sobre eternidade...
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sábado, 19 de janeiro de 2013
domingo, 17 de junho de 2012
De Quem é o Rosto de Márcia Tiburi?
Olhar
para traz, ver por onde se passou e tudo o que deixou pelo caminho. Comparar o
que se era com o que se é. Alguns, não saberiam conter o riso. Para esses, o
passado é algo que não merece novamente retornar à vida. Outros, no entanto,
constatando o presente como um “espaço aberto”, ausente de significado e morto,
procuram no passado o eu que pela força das circunstâncias foi legado ás
sombras. Procuram nesse passado o seu futuro. Assim, Márcia Tiburi expressa em
seu novo livro “Era Meu Esse Rosto” (Record) uma comovente e intensa reflexão
sobre a necessidade recorrente a cada um de voltar ás origens quando o presente
torna-se absurdo. Nesse aspecto, a memória torna-se o instrumento para a reconstrução
da identidade e reavaliação de valores. Todavia, o que somos, não somos
sozinhos. É justamente em nossas relações que se estabelece nossa identidade.
Há algo em nós presente nos outros, que nos foi legado pelos outros. Todas as
relações possuem uma origem. Quando envelhecemos, o passado costuma ficar doce
e a infância açucarada. Talvez seja o pressentimento de algo amargo. Nesse
aspecto, não há nada de poético na infância em si mesma. Ela torna-se poética à
medida em que se distancia irremediavelmente de nós. Nesse aspecto há algo de
freudiano em Márcia Tiburi, que ao evocar a infância de seu personagem,
contrapondo-se à sua condição presente, compreendo o que somos hoje, uma
síntese de relações e que ao longo do tempo nos foram subtraídas de modo abrupto.
Lembrar é contar as perdas. A morte, assim como a memória da infância como
reivindicação de identidade, torna-se o tema predominante na narrativa. O mundo
está ai, e foi construído por pessoas que, caso não se manifestem, permanecem
anônimas. Essas pessoas não se manifestam. O mundo, constitui portanto de uma série
de biografias anônimas de fantasmas representados por lápides nos cemitérios
(reais e os da memória). Lembramos e temos saudade, e nesta saudade reside um
pouco de cada um de nós que se perde nos outros.
Caríssima Márcia,
Esse não é o seu rosto, na parte ou
no todo, é o rosto de todos nós.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Resenha do Livro "Os Últimos Dias" de Liev Tolstói
Ler
Tolstói sempre é um grande prazer. Por ser racionalista, o grande escritor
russo acredita em demasia no poder da compreensão, no esclarecimento por meio
de idéias elevadas. Acredita que o ser humano pode se deixar convencer por um
bom argumento, muito embora, às vezes se convença também que isso nem sempre
seja o suficiente. De que seja preciso também coração. Os Últimos Dias (Penguin Companhia, 2009), volume contendo uma coletânea
de alguns dos últimos textos do escritor, expressa bem essa esperança de
Tolstói, resumidas em textos breves sobre a essência de todo o seu pensamento: sua
versão moral do cristianismo (trecho de “O Reino de Deus Está Dentro de Vós” e “O
que é religião e em que consiste sua essência?”) sua defesa do vegetarianismo (trecho
de “O Primeiro Degrau”), seu anti-cientificismo (“Ciência Moderna”), sua
aversão ao militarismo e aos governos (“Patriotismo e Governo” e “Carta a um
Oficial de Baixa Patente”), seus debates com o clero ortodoxo vigente (“Apelo
ao Clero” e “Resposta à Determinação do Sínodo de Excomunhão, de 20-22 de
fevereiro, e às Cartas Recebidas Por Mim a esse Respeito”) e sua crítica a
adoração cultural a Shakespeare). Há também dois contos que merecem especial
atenção: “Onde Está o Amor Deus Também Está” e “Três Perguntas”. Ambos emocionantes.
Todavia,
acredito ser o ponto alto do livro a apresentação, no conjunto da obra, de sua
visão particular do cristianismo: a incompatibilidade entre o primeiro e o novo
testamento, a descrição metafórica dos milagres, sua recusa em aceitar a
divindade de Cristo e a trindade, a inutilidade dos ícones e etc; o que o
aproxima do deísmo racionalista e do liberalismo teológico do séc.XIX. O
cristianismo, segundo Tolstói é um conjunto de princípios morais estabelecidos
por Cristo no sermão da montanha, fundamentado na não resistência ao mal.
Princípio esse que o escritor explorou e definiu como a descoberta do sentido
de sua vida. A herança deixada por essa compreensão é impressionante: talvez
você não seja vegetariano ou liberal (teologicamente), talvez você não seja
anarquista e ainda acredite no governo, todavia, é impossível não concordar com
Tolstói de que a única maneira possível a fim de aprendermos o amarmos uns aos
outros é considerarmos que não podemos fazer aos outros o que não queremos que
os outros façam a nós. De que a única forma de acabarmos com a violência é
nós mesmos sermos pacíficos, mesmo quando injustiçados, não resistimos ao mal.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Casa Grande e Senzala
Quem é o brasileiro? Pergunta-se Gilberto Freyre em seu clássico livro “Casa Grande e Senzala”. A belíssima edição da Global Editores (2006), com imagens do acervo da Fundação Gilberto Freyre e do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e prefácio de Fernando Henrique Cardoso, que durante todo o texto critica muito o livro do ponto de vista acadêmico e metodológico, mas o elogia como uma análise sentimental da sociedade patriarcal brasileira. Em tempos de globalização e expansão de mercados, e por isso, de fluidez cultural, uma pergunta como essa, torna-se difícil de ser respondida hoje, ou pelo menos, propicia algumas sérias dificuldades. É preciso recorrer à história do Brasil colonial (início de nossa formação social) a fim de encontrar nela, elementos que nos permitam definir antropologicamente.
O livro se estabelece como uma reconstrução histórica da vida privada dos primeiros habitantes do nosso país: alimentação, vestuário, educação dos filhos, religião e sexualidade, característica especificadamente a cada grupo racial fundador da colônia: portugueses, índios e negros. Propõe-se também a dissertar sobre como a miscigenação racial irá alterar esses costumes, anteriormente estratificados, determinando a formação de um povo completamente novo, isto é, o povo que somos hoje, que se caracteriza como uma síntese dialética entre povos originalmente antagônicos entre si.
O que mais simpatiza na obra, consiste justamente em que à medida que a lemos, nos encontramos nela, como nossos vícios e virtudes. Freyre não faz da dicotomia explorador x explorado um tipo de polarização moral, tal como o faz Galeano em As Veias Abertas da América Latina, numa luta perpétua entre exploradores maus e explorados inocentes e bons. Fugindo dessa intenção, muito em voga à época de lançamento do livro (década de 30) Freyre torna explícita a ambigüidade moral de cada ser humano. É a análise de tal ambigüidade, do ponto de vista antropológico, que torna a obra polêmica e até vítima de contestação.
Em muitos trechos do livro, Freyre se dedica a contestar o mito de inferioridade racial, inicialmente do índio, sucessivamente do negro e das miscigenações oriundas de tais raças (o mulato, o caboclo e etc.). Entretanto, defende que, o índio, por ser semi-nômade não poderia se adequar ao sedentarismo, economicamente expresso no regime escravocrata e patriarcal, determinando assim, sua impossibilidade física para o trabalho escravo. O negro por outro lado, se adaptou bem a tal economia, por serem (antes da escravidão) bons agricultores e criadores de gado.
A miscigenação é outro fator importante na obra de Freyre. O contingente de mulheres brancas era insuficiente para um ideal eugênico de raças estratificadas no Brasil. Em outras palavras, ainda que uma Portugal de mulheres colonizassem o Brasil, devido às características continentais do nosso país, a miscigenação não apenas havia se tornado inevitável como uma necessidade. Necessidade social e econômica, particularmente de mão de obra escrava. Outro mito contestado por Freyre é o de inferioridade moral do negro. A liberdade sexual nas senzalas, favorecendo a poligamia entre negros e o nascimento de filhos bastardos dos senhores de engenho, era um instrumento para o aumento do capital humano e da mão de obra escrava. Se alguém devia ser acusado de imoralidade, este seria o senhor de engenho!
Quem é o brasileiro? Gilberto Freyre não apresenta uma definição simples. Não somos. Estamos ainda a nos fazer. Entretanto, é preciso conhecer como essa auto- formação é estabelecida. Em nossa natureza está firmada uma plasticidade, iniciada com a miscigenação racial e agora cultural, que para o autor só tende a ser benéfica. O que dos outros reside em nós, adaptamos de tal forma que se torna algo completamente novo. Nós somos um povo novo.
sábado, 7 de janeiro de 2012
As Veias Abertas da América Latina
Não há como negar: não há história sem sangue. A história da América Latina, do seu descobrimento até os dias de hoje consiste, pois, numa história coberta de sangue, de muito sangue. Todavia, cabe ressaltar, esse sangue pertence a homens e mulheres que entregaram suas vidas em sacrifício, sem ao menos deixarem, na maioria das vezes, o seu nome para as gerações futuras a fim de lhes gerar recordação, memória. A história da América Latina constitui portanto, a história do sacrifício de pessoas que sequer deixaram lembrança. E são eles, os índios na extração de ouro e prata nas jazidas, os negros, no cultivo da cana de açúcar e do café, o nordestino, na extração do látex nos seringais e os emigrantes, japoneses, italianos e etc. Pessoas. Que ontem, sorriam e choravam. Faziam festa e filosofavam. Hoje, são ossos soterrados sobre os nossos pés.
Alguém conta a história. Na maioria das vezes, são eles, os exploradores da mão de obra barata dos índios, dos negros, dos nordestinos, dos emigrantes. A partir dessa perspectiva, a história é sempre laureada de flores. Todavia, existe uma outra maneira de se contar essa história: a partir de quem sofre! Assim nasce a obra “As veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano (LP&M, 2010). Sua intenção consiste justamente em demonstrar que “... o subdesenvolvimento latino-americano é uma conseqüência do desenvolvimento alheio, que nós latino-americanos somos pobres porque é rico o solo que pisamos e que os lugares privilegiados pela natureza foram amaldiçoados pela história. Nesse nosso mundo, mundo de centros poderosos e subúrbios submetidos, não há riqueza que pelo menos não seja suspeita” (Pag. 349). Em suma, não há riqueza que seja inocente.
O livro merece elogios e críticas. A começar pela edição da LP&M que a princípio não é muito boa. Possui vários erros ortográficos simples e de editoração quando envolve números, muito embora a capa e toda produção do livro tenha ficado excelente como um todo. Galeano não pretende ser um cientista. Não escreve como um cientista social ou acadêmico e chega a afirmar que essa não é sua intenção. Aproxima-se dos novelistas. A partir daí o texto ganha uma profunda ambigüidade. Galeano faz de sua obra uma novela sobre os fundamentos da desigualdade e da exploração na América Latina. Uma novela onde (como em qualquer outra) os personagens se dividem rigidamente em bons e inocentes (os povos latino-americanos) e maus e perversos (os conquistadores espanhóis e portugueses e atualmente os imperialistas americanos). Como nas novelas da TV. Entretanto, na vida real, onde envolvem homens de carne o ossos, e não simples personagens, homens totalmente bons ou maus não existem como também queria Rousseau. Esse paradoxo moral define a nossa natureza. As novelas portanto, não podem definir seres humanos. Essa é a importância da obra de Galeano. Em sua negatividade, a obra parte do conceito de que nós (opressores e oprimidos) não somos humanos, mas apenas personagens. Não possuímos concretamente uma vida real.
Essa forma rígida de nos enxergarmos como moralmente definidos define a exploração de uns sobre outros, e uma infinidade de outros conflitos. Gera um desnível entre os homens que em cada época é defendido pelo opressor como um desnível de cor, de inteligência e culturas e por último, por conta da globalização, um desnível econômico. Galeano se propõe a uma análise desse desnível econômico, e como novelista se utiliza de uma linguagem mais amena do que tantos especialistas no assunto. O que ele lamenta, assim como eu, é que muito embora o livro tenha sido escrito a quarenta anos atrás, ainda não perdeu sua atualidade.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Estação Jugular, de Alan Pitz
E
se você subisse num ônibus, e soubesse, durante a viagem, que está indo para a
eternidade? Instantaneamente, sua viagem, de trivial e banal, se tornaria, ela
mesma, a mais importante da sua vida, por ser justamente a última. Sua visão
não seria mais a mesma. Como definir cores e sons de lugares desconhecidos para
a maior parte da humanidade (pelo menos, viva)? Parábolas que beiram ao
absurdo. É o que propõe Alan Pitz em seu livro “Estação Jugular” lançado este
ano pela editora multifoco.
Franz,
tentando fugir do sol, embarca numa viajem que o leva para o seu destino e
origem. O seu ponto final. É evidente no texto elementos narrativos que me cabem
comparar apenas a nomes como John Bunyan (autor de “O Peregrino”) e Frans Kafla
(autor de “O Processo”), pela temática utilizada e a ênfase alegórica presente
no livro. Alan consegue explorar esses elementos de uma forma nova,
contextualizada e elegante.
A
vida é uma viagem, e a morte também. Todos nós nascemos como peregrinos, como
pródigos, regressamos à casa de onde partimos. Para alguns, essa viagem pode
ser muito longa, e para outros, curta demais, entretanto, ela não deixa de ser
uma aventura fascinante, onde descobrimos onde a estrada está nos levando e que
o caminho que estamos indo é apenas um espelho de quem somos. É só olhar para
os próprios pés.
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