Devaneios literários de um teólogo sobre o ritmo das Metrópoles; seu mundo e sua gente. E é claro, sobre eternidade...
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quinta-feira, 8 de março de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Vida, Avenida: Reflexões Sobre o Carnaval
Não
há nada que defina tanto o brasileiro em sua cultura e mentalidade quanto o
carnaval. Aqui me cabe chamar a atenção dos filósofos, pois caso se interessem
em identificar uma “filosofia brasileira” esta teria em tal festa popular uma
temática bem extensa. O culto ao corpo, a valorização dos sentidos e o prazer
imediato como valor fundamental.
Há
uma vida de verdade e outra de mentira; de fantasias, plumas, brilho, máscaras
e prazer. Há uma vida de festa e outra de trabalho, de rostos sofridos e
consumidos pela velhice antes do tempo, de cansaço e estresse. Há uma vida onde
se predomina o desejo e a liberdade e outra onde prevalece a opressão e a
obediência como forma de sobrevivência. Não gostamos dessa vida, e por isso,
inventamos outra mais doce, e fugimos para ela, pelo menos, provisoriamente.
Não
há liberdade. Há entorpecimento. Não podemos privar o brasileiro de alegria,
não tenho a intenção de evocar moralismos, contudo, é preciso evocar a alegria
em sua autenticidade e não comprada a preço de sangue. No passado, essa festa,
era feita pelos negros das senzalas por concessão dos senhores de engenho,
hoje, os senhores são outros, mas os escravos continuam os mesmos. Nossa
realidade se resume a corpo, fazendo dos nossos valores norteados apenas pela
busca ao prazer. Alguns fazem da vida uma grande avenida, outros, um extenso
corredor da morte. Não há esperança para nenhum dos dois, que em resumo, fazem
da vida apenas uma agradável (ou não) espera para a morte.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Pré – Venda de “O Eterno e o Transitório”
Caríssimos,
Meu livro “O Eterno e o
Transitório” está em pré-venda. O
lançamento está previsto para abril/maio deste ano. Entretanto, é possível
encomendar o livro antecipadamente, contribuindo para a sua publicação pela
editora “Livros Ilimitados”. Deixando claro que os exemplares encomendados
antecipadamente serão entregues via correio (com as despesas por minha conta) a
partir do lançamento oficial do livro. O número de exemplares vendidos em
pré-venda é restrito a 30 exemplares. O valor do exemplar será de R$: 39,90. Aos
interessados deixo a conta bancária em nome de Ana Maria da Conceição Santana
(minha mãe) onde é possível realizar o depósito. Em seguida, peço que entrem em
contato comigo pelo email: diogosantana45@yahoo.com.br,
informando nome completo e endereço para a entrega do livro, em ocasião de seu
lançamento:
Caixa Econômica Federal
Ana Maria A. da C.
Santana
Conta: 0190.013.00800301-3
Um abraço,
Diogo Santana.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Epifania
Estou morrendo.
Epifanias como essa não
acontecem todos os dias. A minha, vergonhosamente aconteceu enquanto
completamente bêbado, junto a palavras desconexas e choro compulsivo, berrava à
todos os pedestres na rua:
“Eu vou morrer!”, “Eu
vou morrer!”
Ninguém se atrevia a
chegar perto. Temiam que eu fosse violento e perigoso. Alguns riam sem parar e
debochavam entre si da cena ridícula que eu fazia.
Estou morrendo, e isto
significa que até aqui, no auge dos meus vinte anos, tenho passado a juventude
distraído à jogar meu tempo fora. Isso é assustador, pois afinal, talvez, não
haverá mais volta. Não há como recuperar esse tempo, e isso é fato.
Morrer é inevitável, e
toda vez que me imagino num caixão, apodrecendo e sendo devorado por milhões de
vermes, me estremece até a alma. Se de fato há alguma. Estou morrendo. Estou
gastando tempo. É impossível não deixar de gastar esse tempo. Como saber
gastá-lo? É preciso portanto, saber controlar o tempo que se gasta. Não se
trata, porém, de um simulado desejo religioso pela eternidade. Não desejo o céu
ou o inferno, mas apenas este velho, feio e decadente mundo que vivo.
Tenho uma estúpida, ou
brilhante (dependendo do ponto de vista) idéia de montar uma rotina. Até o
final da vida. Não adianta. Não tenho disciplina pra isso. Não me dou bem com
relógios e calendários.
Cheguei aos noventa anos!
Abro os olhos. Dois
anjos me encaram. Não sei dizer para onde me levam. No caminho, discutem entre
si o que farão da minha alma. Um deles, ironicamente e com um sorriso no rosto
perguntou:
- Como é a sensação de
morrer?
- Sinceramente não sei.
Não estava mais lá quando aconteceu.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Resenha do Livro "Os Últimos Dias" de Liev Tolstói
Ler
Tolstói sempre é um grande prazer. Por ser racionalista, o grande escritor
russo acredita em demasia no poder da compreensão, no esclarecimento por meio
de idéias elevadas. Acredita que o ser humano pode se deixar convencer por um
bom argumento, muito embora, às vezes se convença também que isso nem sempre
seja o suficiente. De que seja preciso também coração. Os Últimos Dias (Penguin Companhia, 2009), volume contendo uma coletânea
de alguns dos últimos textos do escritor, expressa bem essa esperança de
Tolstói, resumidas em textos breves sobre a essência de todo o seu pensamento: sua
versão moral do cristianismo (trecho de “O Reino de Deus Está Dentro de Vós” e “O
que é religião e em que consiste sua essência?”) sua defesa do vegetarianismo (trecho
de “O Primeiro Degrau”), seu anti-cientificismo (“Ciência Moderna”), sua
aversão ao militarismo e aos governos (“Patriotismo e Governo” e “Carta a um
Oficial de Baixa Patente”), seus debates com o clero ortodoxo vigente (“Apelo
ao Clero” e “Resposta à Determinação do Sínodo de Excomunhão, de 20-22 de
fevereiro, e às Cartas Recebidas Por Mim a esse Respeito”) e sua crítica a
adoração cultural a Shakespeare). Há também dois contos que merecem especial
atenção: “Onde Está o Amor Deus Também Está” e “Três Perguntas”. Ambos emocionantes.
Todavia,
acredito ser o ponto alto do livro a apresentação, no conjunto da obra, de sua
visão particular do cristianismo: a incompatibilidade entre o primeiro e o novo
testamento, a descrição metafórica dos milagres, sua recusa em aceitar a
divindade de Cristo e a trindade, a inutilidade dos ícones e etc; o que o
aproxima do deísmo racionalista e do liberalismo teológico do séc.XIX. O
cristianismo, segundo Tolstói é um conjunto de princípios morais estabelecidos
por Cristo no sermão da montanha, fundamentado na não resistência ao mal.
Princípio esse que o escritor explorou e definiu como a descoberta do sentido
de sua vida. A herança deixada por essa compreensão é impressionante: talvez
você não seja vegetariano ou liberal (teologicamente), talvez você não seja
anarquista e ainda acredite no governo, todavia, é impossível não concordar com
Tolstói de que a única maneira possível a fim de aprendermos o amarmos uns aos
outros é considerarmos que não podemos fazer aos outros o que não queremos que
os outros façam a nós. De que a única forma de acabarmos com a violência é
nós mesmos sermos pacíficos, mesmo quando injustiçados, não resistimos ao mal.
Citação - "Do Primeiro Degrau" - Liev Tolstói
“... o principal interesse
das pessoas de nossa época é a satisfação do paladar, o prazer da comida, da
gula. Das classes sociais mais pobres às mais ricas, a gula, penso eu, é o
objetivo principal, é o principal prazer da nossa vida. O povo pobre trabalhador
constitui uma exceção, mas apenas no sentido de que a miséria o impede de se
entregar a essa paixão. Quando ele tem tempo e meios para isso, à maneira das
classes altas, compra o mais gostoso e o mais doce, come e bebe o quanto pode.
Quanto mais come, mais ele se sente não só feliz, mas também forte e saudável.
E as pessoas instruídas, que vêem o alimento precisamente dessa forma, apóiam-no
em tal convicção. A classe instruída imagina (embora se esforce para ocultá-lo)
que a felicidade e a saúde (e disso a convencem os médicos, afirmando que o
alimento mais caro, a carne, é o mais saudável) estão no alimento saboroso,
nutritivo e facilmente digerível.
Observem a vida dessas
pessoas e escutem suas conversas. Parecem que só se ocupam de temas elevados:
filosofia e ciência, arte e poesia, a distribuição da riqueza, o bem-estar do
povo e a educação da juventude; mas tudo isso, para a imensa maioria, é uma mentira
– eles se ocupam de tudo isso nas horas vagas, entre as verdadeiras ocupações,
entre o café da manhã e o almoço, enquanto o estômago está cheio e não é
possível comer mais. O interesse vivo e verdadeiro da maioria dos homens e das
mulheres é a comida, sobretudo depois da primeira juventude. Como comer, o que
comer,quando e onde?
Nenhuma solenidade,
nenhuma alegria, nenhuma consagração ou abertura do que quer que seja acontece
sem comida.
Observem as pessoas que
viajam. Nelas isso é especialmente evidente. “Museus, bibliotecas,
parlamento... que interessante! Mas onde vamos almoçar? Quem oferece a melhor
comida?” Mas vejam só as pessoas,como elas se reúnem para o almoço, arrumadas,
perfumadas, a uma mesa enfeitada com flores, com que alegria esfregam as mãos e
sorriem”
(Liev Tolstói, Os Últimos Dias, pp.38-39).
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Raízes do Literalismo Hermenêutico Bíblico
“A
opção de Javé por locais elevados não é infundada, porque, na condição de
guerreiro, ele desce dos montes para combater os inimigos. Seu templo, conforme
demonstra Levenson (seguindo Ezequiel, de modo particular), é espiritualmente
idêntico ao luxuoso Jardim do Éden, onde ele se aprazia em caminhar na tarde fresca. Quando Adão e Eva são expulsos do paraíso
(para que não se tornem deuses), o jardim continua a existir, guardado por um
querubim. Por conseqüência, a destruição do templo de Javé foi também a
obliteração do paraíso, que jamais voltaria a existir, a não ser que o templo
fosse reconstruído. Mas se a própria Bíblia substitui o templo, então, o livro
também substitui o paraíso, noção que talvez explique por que Ekiba insistia,
com tamanha paixão, que o Cântico dos Cânticos, que é de Salomão, deveria ser canônico. Incapacitado de caminhar no Éden ou de se
regalar no Templo, Javé reside na Bíblia hebraica. Ali se sente tão confortável
que pode prescindir o terceiro templo, a menos que atualmente (conforme a mim
parece, embora não aos que ainda crêem na Aliança) que ele tenha se exilado até
mesmo no deleite daquelas páginas”.
Harold
Bloom em Jesus e Javé: os nomes divinos.
Editora Objetiva. pp. 148.
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